Se Eu Fosse Você 3 repete a fórmula do primeiro filme, ainda encontrando graça na clássica troca de corpos.
Se Eu Fosse Você 3 chega ao Festival do Rio com uma legião de fãs que viram Tony Ramos e Glória Pires trocarem os papéis em 2006. Agora, enquanto Cláudio e Helena saem em uma lua de mel, a troca de corpos acontece com a filha do casal, Bia (interpretada por Cleo Pires) e Aquiles, seu namorado. Em seu primeiro ato, o filme parece pouco interessado em construir uma identidade própria. A fotografia excessivamente clara, com aparência quase desprovida de tratamento de cor, contribui para uma sensação amadora que também se manifesta na condução da narrativa. Os diálogos são pouco desenvolvidos e a história avança por caminhos bastante previsíveis.
É somente depois da troca de corpos que o filme começa a encontrar seu ritmo cômico.

Algumas piadas funcionam muito bem e são genuinamente engraçadas; outras, porém, parecem existir apenas para reforçar a ideia de que determinadas tarefas seriam essencialmente “de homem” ou “de mulher”. É uma fórmula que, além de previsível, já não possui a mesma força cômica de outros momentos da franquia.
Muitas das situações continuam baseadas na oposição entre aquilo que supostamente pertence ao universo masculino e aquilo que pertenceria ao feminino, como se a capacidade de ambos fosse definida pelo gênero.
Quando encontra um bom timing para suas piadas, porém, Se Eu Fosse Você 3 consegue ser bastante divertido, mostrando que ainda há potencial cômico na premissa mesmo depois de tantos anos.

Curiosamente, é no terceiro ato que Se Eu Fosse Você 3 encontra sua melhor utilização da premissa. Com os corpos trocados, os protagonistas precisam assumir os empregos um do outro sem levantar suspeitas. Ela é chef de cozinha; ele trabalha como guia de esportes radicais. Enquanto ele precisa lidar com uma rotina profissional que desconhece completamente, ela é obrigada a enfrentar atividades que envolvem altura, justamente aquilo que mais teme. A situação hilária passa a colocar os personagens, de maneira concreta, diante das dificuldades que o outro enfrenta diariamente.
Essa escolha também fortalece o relacionamento do casal, que já atravessa uma crise. Embora seja absolutamente previsível que a experiência de viver na pele do outro contribua para a reconciliação, o filme consegue conduzir essa ideia de maneira relativamente orgânica. A mensagem sobre empatia e sobre a necessidade de compreender a perspectiva do parceiro não é apresentada como uma grande lição de moral, mas surge das próprias situações em que os personagens são colocados. É justamente aí que a previsibilidade deixa de ser um problema tão significativo: sabemos para onde a história está caminhando, mas a jornada até lá ainda consegue ser agradável.
Também chama atenção a maneira como o filme se distancia do humor mais físico que marcou o primeiro Se Eu Fosse Você. Não há aqui a mesma sucessão de situações absurdas que transformavam Tony Ramos em uma fonte praticamente inesgotável de comédia, como as sequências clássicas envolvendo maquiagem e batom. O terceiro filme prefere explorar a tentativa dos protagonistas de interpretar um ao outro em seus respectivos empregos e, principalmente, de convencer as pessoas ao redor de que nada de extraordinário aconteceu.

O resultado é uma comédia irregular, que está longe de reproduzir a força cômica do primeiro filme, mas que encontra alguns caminhos interessantes ao compreender que a troca de corpos pode servir a algo além da simples inversão de comportamentos. Se Eu Fosse Você 3 é previsível desde o princípio, mas nem toda previsibilidade precisa ser um defeito em uma história desse gênero. O que pesa contra o filme é a insistência em um humor baseado em estereótipos já desgastados e uma primeira parte pouco inspirada. Quando abandona essas soluções mais fáceis e permite que a premissa seja usada para aprofundar a relação entre seus personagens, entretanto, a produção se torna mais natural, mais divertida e, sobretudo, mais coerente com aquilo que a própria ideia de “se colocar no lugar do outro” pretende representar.
★★⯪☆☆
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido no 28º Festival do Rio.
Se Eu Fosse Você 3
Brasil, 2026, 92min.
Direção: Anita Barbosa
Roteiro: Leandro Soares
Elenco: Glória Pires, Tony Ramos, Cléo Pires
Produção: Daniel Filho, Walkiria Barbosa, Vilma Lustosa
Direção de Fotografia: Pedro Iorio
Classificação: 10 anos
Distribuição: 20th Century Studios










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