Sense and Sensibility - Universal Pictures, 2026 | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility)

Razão e Sensibilidade transforma Jane Austen em uma sequência de pinturas

A trilogia de Jane Austen é uma das poucas histórias de romance que sobreviveram tão bem ao tempo. Jane escreveu um romance sobre duas irmãs, uma movida pela contenção e outra pela intensidade, e o enredo continua tão vivo hoje quanto era no século XIX. Agora essa história retorna em uma nova versão, que chega à altura da adaptação de Ang Lee em 1995.

Adaptar uma história tão conhecida é sempre um desafio. O público já sabe como tudo termina, e por isso o filme precisa se justificar de outro modo, oferecendo uma experiência, e não apenas uma trama. Nesta versão, essa experiência está menos na narrativa em si e mais na forma como ela é construída. A história, claro, continua funcionando. As personagens são ricas e bem construídas, e os envolvimentos românticos têm a mistura de ironia, frustração e ternura que torna Austen irresistível. É muito difícil errar com um material tão sólido, e o filme não erra. Elinor e Marianne seguem carregando o coração da narrativa, e o contraste entre as duas continua emocionante.

Sense and Sensibility – Universal Pictures, 2026 | Imagem: Reprodução TMDB

A premissa permanece essencialmente a mesma: após a morte do patriarca da família, Elinor, Marianne e sua mãe precisam reconstruir a própria vida diante de uma realidade financeira bastante diferente daquela a que estavam acostumadas. Nesse cenário, enquanto Elinor procura administrar os sentimentos por meio da racionalidade, Marianne se entrega às emoções com uma intensidade quase incontrolável. São duas perspectivas distintas sobre o amor, mas igualmente vulneráveis às expectativas de uma sociedade que oferece às mulheres poucas possibilidades de escolha. O resultado é uma narrativa envolvente, sustentada por personagens muito bem construídas e relacionamentos que encontram na sutileza dos sentimentos sua principal força.

O que realmente diferencia esta adaptação, entretanto, está na maneira como Georgia Oakley escolhe apresentar esse universo ao espectador. Se a história já possui uma força dramática considerável, é na construção visual que o filme encontra uma de suas maiores virtudes. A fotografia de Arnaud Potier é absolutamente estonteante, transformando paisagens, interiores e até mesmo os momentos mais cotidianos em composições de beleza impressionante. Há cenas que parecem verdadeiras pinturas em movimento, com uma atenção à luz, às cores e à disposição dos elementos que faz com que cada enquadramento mereça ser contemplado. O filme consegue fazer com que o espectador se sinta parte daquela Inglaterra do século XIX.

Sense and Sensibility – Universal Pictures, 2026 | Imagem: Reprodução TMDB

Essa preocupação estética muda a forma como os sentimentos chegam ao espectador. A natureza, os cenários e a atmosfera de cada cena conversam o tempo todo com o que se passa dentro das personagens. A câmera acompanha tudo com delicadeza, sem pressa, e a beleza das imagens encontra espaço para existir na melancolia, na paixão e nas frustrações da história. A fotografia aqui é parte da identidade do filme, e não só um aspecto técnico.

A trilha sonora de Roger Goula merece o mesmo destaque. Construída com muita sensibilidade, ela acompanha os acontecimentos com tanta precisão que parece conduzir o espectador de uma emoção a outra. Quando a música cresce nos momentos decisivos, o efeito é quase avassalador, e encontros, despedidas e descobertas ganham ainda mais peso. Em certas cenas, fotografia e trilha funcionam em uma sintonia tão perfeita que se torna difícil saber onde termina a emoção da história e onde começa a que o próprio filme fabrica. Ele parece encontrar nessas duas linguagens um jeito de tornar cada acontecimento maior do que já é. Isso não diminui seus méritos; só mostra o quanto esses elementos pesam na experiência do cinema.

Sense and Sensibility – Universal Pictures, 2026 | Imagem: Reprodução TMDB

Naturalmente, existe também o desafio de revisitar uma obra que já recebeu uma adaptação tão celebrada. A versão de Ang Lee permanece como uma referência importante, mas Georgia Oakley não parece interessada em simplesmente reproduzir aquilo que já funcionou anteriormente. Sua abordagem encontra personalidade sobretudo na maneira de olhar para aquele período, valorizando a atmosfera, a intimidade e a composição das imagens. A história continua sendo o grande alicerce emocional da produção, mas existe um cuidado audiovisual que confere a essa nova versão um encanto particular.

No fim, Razão e Sensibilidade é uma adaptação que conquista tanto pela força de sua história quanto pela maneira extraordinária como escolhe contá-la. Se Jane Austen continua oferecendo personagens e conflitos capazes de atravessar os séculos, Georgia Oakley encontra na fotografia e na música instrumentos poderosos para renovar o encantamento dessa narrativa. É um filme visualmente deslumbrante, emocionalmente envolvente e que demonstra como a beleza cinematográfica, quando colocada a serviço da história, pode transformar uma experiência já conhecida em algo novamente especial.

 

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

 

 

Razão e Sensibilidade | Sense and Sensibility
Estados Unidos/Reino Unido, 2026, 132min.
Direção: Georgia Oakley
Roteiro: Diana Reid
Elenco: Daisy Edgar-Jones,Esmé Creed-Miles, Caitríona Balfe
Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, India Flint
Direção de Fotografia: Arnaud Potier
Música: Roger Goula

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