Histoires parallèles - Festival do Rio | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Contos Paralelos (Histoires Parallèles) [28º Festival do Rio]

Um filme sobre voyeurismo, imagem e som

Contos Paralelos é o segundo filme de Asghar Farhadi produzido na França e segue a história de Sylvie, uma escritora francesa que vive uma crise criativa. Depois de anos sem conseguir recuperar o prestígio que já teve, ela começa a observar, com uma luneta, os vizinhos do prédio em frente. Do outro lado da rua estão Nicolas, sua esposa Nita e seu irmão Théo, três profissionais que trabalham juntos em um estúdio de efeitos sonoros para cinema. Só que Sylvie não consegue ouvir o que acontece ali. Então, ela começa a imaginar o que acontece naquele apartamento, transformando aqueles três desconhecidos em personagens de um romance.

A obra, levemente inspirada em Decálogo VI, brinca com o poder do audiovisual como uma junção entre áudio e imagem. Sylvie escreve seu livro como alguém que interpreta a vida de pessoas apenas por imagens, sem nunca ter escutado um som produzido por elas. Em contrapartida, os três vizinhos trabalham com foley e não têm a possibilidade de se enxergar de fora, tal qual Sylvie, que escreve seu livro com base no que supõe que esteja acontecendo.

Histoires parallèles – Festival do Rio | Imagem: Reprodução TMDB

Logo após a apresentação da premissa do filme, somos apresentados a um novo personagem, Adam, um jovem contratado para auxiliar Sylvie a organizar seu apartamento. Ao ler o manuscrito, ele fica obcecado com os vizinhos e começa a criar desculpas para se aproximar de Nita. Com isso, a trama vai sendo construída de forma que os personagens estejam o tempo inteiro observando alguém, sendo observados ou imaginando aquilo que acontece do outro lado. A história que Sylvie escreve começa a se misturar com a realidade dos vizinhos, e o filme brinca constantemente com essa fronteira entre aquilo que realmente está acontecendo e aquilo que alguém imagina que esteja acontecendo. A ficção passa a interferir na realidade, enquanto a realidade também começa a alimentar a ficção.

Farhadi consegue manter essa dinâmica interessante porque existe sempre alguma informação nova sendo acrescentada àquilo que já foi visto. O espectador também assume, de certa forma, o papel de Sylvie: observa, interpreta e tenta entender relações que não conhece completamente. É uma brincadeira bastante simples na sua construção, mas eficiente na maneira como transforma o público em mais um dos observadores daquela história.

Histoires parallèles – Festival do Rio | Imagem: Reprodução TMDB

A relação entre imagem e som talvez seja a ideia mais interessante do filme. Sylvie constrói sua narrativa a partir daquilo que consegue enxergar, mas não tem acesso ao som daquela vida que está observando. Do outro lado, Nicolas, Nita e Théo trabalham justamente com a criação de sons para o cinema, mas vivem suas próprias relações sem conseguir enxergá-las de fora. Quando eles descobrem a história que Sylvie escreveu, começam a questionar a própria imagem que projetam para alguém que os observa à distância. O filme encontra aí uma maneira bastante inteligente de discutir como nenhuma imagem é completa quando está separada do som e como nenhuma história é necessariamente verdadeira quando construída apenas a partir daquilo que conseguimos perceber.

Apesar disso, Contos Paralelos poderia ser um filme menor e provavelmente teria ainda mais força, principalmente porque as ideias que Farhadi apresenta não são tão complexas a ponto de exigirem tanto tempo para serem desenvolvidas. Ainda assim, existe uma leveza na condução que impede que a experiência se torne cansativa, e a mistura entre humor, voyeurismo e ficção mantém a narrativa em movimento.

Histoires parallèles – Festival do Rio | Imagem: Reprodução TMDB

No fim, é um filme que parece menos interessado em contar uma grande história do que em brincar com a maneira como histórias são construídas.

★★★⯪☆

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

 

Contos Paralelos | Histoires Parallèles
França, Arábia Saudita, Estados Unidos, 2026, 139min.
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi, Massoumeh Lahidji
Elenco: Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel
Produção: Asghar Farhadi, Alexandre Mallet-Guy, Gaëtan David
Direção de Fotografia: Guillaume Deffontaines
Música: Zbigniew Preisner
Classificação: 14 anos

Distribuição: Imovision

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