La Bola Negra - Festival do Rio | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | A Bola Preta (La Bola Negra) [28º Festival do Rio]

Uma aula magistral de cinematografia e construção de narrativa.

O filme de abertura do 28º Festival do Rio é uma obra extremamente densa e um forte candidato ao prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar. Com seus longos 155 minutos de duração, a obra nunca chega a ser cansativa, utilizando de seu tempo para construir uma narrativa sobre o medo e desejo presentes no homossexualismo ao longo dos anos, e a falta de liberdade das pessoas queer de poderem ser elas mesmas. La Bola Negra é um filme sobre aquilo que sobrevive depois que uma vida é obrigada ao silêncio.

O longa conecta três histórias em diferentes momentos da história espanhola, 1932 (antes da Guerra Civil), 1937 (durante a guerra) e 2017 (pós-guerra). Os diretores utilizam essas três temporalidades para mostrar diferentes formas de repressão e liberdade. São três períodos diferentes da Espanha, três núcleos e personagens que, à primeira vista, parecem pertencer a filmes diferentes. Carlos está em 1932. Sebastián e Rafael se encontram durante a Guerra Civil. Alberto vive em 2017. O que os aproxima não é simplesmente a homossexualidade, mas tudo aquilo que cada época permitiu ou proibiu que esses homens fizessem com ela.

La Bola Negra – Festival do Rio | Imagem: Reprodução TMDB

Em 1932, Carlos é um jovem de família burguesa em Granada que deseja entrar para um clube social de elite, o Casino. O problema é que existe um rumor de que Carlos é homossexual, então ele precisa passar por um processo de admissão do clube, que envolve uma votação secreta: os membros colocam bolas brancas para aceitar o candidato e bolas negras para rejeitá-lo. Por causa desse boato, Carlos recebe uma bola negra, sendo formalmente excluído por causa da suspeita sobre sua sexualidade. A cena retrata essa exclusão de forma dolorosa e humilhante, deixando mais que claro que Carlos nunca poderá existir sendo quem ele realmente é.

Já em 1937, em plena Guerra Civil, acompanhamos Sebastián, um músico de ideologia apolítica que fica do lado franquista da guerra e se apaixona por um prisioneiro republicano ferido, Rafael. A relação entre os dois coloca o desejo em um lugar ainda mais perigoso, já que o romance nasce justamente entre dois homens separados pelo conflito político e pela própria guerra. Agora, em 2017, acompanhamos Alberto, um jovem gay e dramaturgo/pesquisador que vive em uma Espanha muito diferente daquela de Carlos e Sebastián. Nesse momento da história, Alberto já pode expressar abertamente sua sexualidade e conviver com quem realmente é, diferentemente de seus antepassados. A diferença entre as três histórias deixa evidente o quanto a sociedade mudou, mas também mostra que o passado continua presente de outras maneiras.

La Bola Negra – Festival do Rio | Imagem: Reprodução TMDB

A presença de Federico García Lorca torna tudo ainda mais interessante. O filme parte de La Bola Negra, peça que o escritor deixou inacabada, e imagina o que poderia ter existido além das poucas páginas que sobreviveram. É justamente a partir desse manuscrito que as três histórias começam a deixar de parecer tão distantes umas das outras. O manuscrito de Lorca passa a funcionar como aquilo que restou de pessoas que poderiam ter desaparecido completamente. Sebastián consegue preservar aquelas páginas, e Alberto chega até elas décadas depois. Existe uma ideia muito forte nisso porque o filme não apresenta a memória como algo organizado. Ela chega em pedaços. Um documento, uma lembrança, uma relação, uma história mal explicada. Cabe a alguém olhar para aquilo e tentar entender o que aconteceu.

É também nesse ponto que o título ganha outra dimensão. A bola negra que inicialmente representa a exclusão de Carlos passa a representar algo maior: o julgamento de uma sociedade que determina quem pode ou não pertencer. Se Carlos é rejeitado por aquilo que os outros acreditam que ele seja, Rafael e Sebastián precisam esconder aquilo que sentem para sobreviver, enquanto Alberto vive em um momento histórico no qual essa escolha já não precisa necessariamente existir. O filme, portanto, não está apenas mostrando três épocas diferentes, mas três maneiras de lidar com a mesma questão.

La Bola Negra – Festival do Rio | Imagem: Reprodução TMDB

Os Javis não escondem a ambição. La Bola Negra quer falar de Lorca, da Guerra Civil, da homofobia, da família, do teatro, da memória e da maneira como uma geração recebe aquilo que a anterior não conseguiu dizer. Às vezes, essa quantidade de ideias pesa sobre o filme, fazendo a extensa duração parecer até mesmo pequena. Ainda assim, existe uma coerência na maneira como esses temas são costurados, principalmente porque nenhum deles aparece isoladamente: a história, a sexualidade, a família e a memória estão sempre se atravessando.

Talvez seja justamente por isso que La Bola Negra permaneça na cabeça depois dos créditos. Não pela quantidade de acontecimentos, mas pela sensação de que existe uma parte enorme da história de cada personagem que nunca chegou a ser registrada. E que, mesmo assim, alguma coisa sobre eles conseguiu sobreviver. Uma página. Um nome. Uma lembrança. Um amor que alguém tentou esconder. A bola negra servia para dizer que aquelas pessoas não pertenciam àquele lugar. O filme passa mais de duas horas tentando fazer o movimento contrário: lembrar que elas estiveram ali.

No fim, o filme é um ode à memória e a forma como ela representa uma das mais poderosas formas de resistência. Conduzido por uma direção memorável e uma trilha sonora avassaladora, que ecoa de modo estonteante perante as paredes da sala de cinema, La Bola Negra é, sem sombra de dúvida, um dos melhores filmes do ano.

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

 

A Bola Preta | La Bola Negra
Espanha/França, 2026, 155min.
Direção: Javier Ambrossi, Javier Calvo
Roteiro: Javier Ambrossi, Javier Calvo, Alberto Conejero
Elenco: Guitarricadelafuente, Miguel Bernardeau, Carlos González
Produção: Javier Calvo, Javier Ambrossi, Jorge Pezzi
Direção de Fotografia: Gris Jordana
Música: Raül Refree
Classificação: 16 anos

Distribuição: Paris Filmes

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