Anistia 79 - Mostra de Cinema de Tiradentes

Crítica | Anistia 79 [29ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

Um filme denso e politicamente urgente

Anistia 79, da documentarista Anita Leandro, é um dos filmes mais densos e politicamente urgentes feitos recentemente pelo cinema brasileiro. O longa devolve voz aos torturados na ditadura militar e revive arquivos da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país.

A obra é construída a partir de imagens captadas em Roma, durante a Conferência, em junho de 1979, quando exilados políticos se reuniram para pedir a anistia ampla e irrestrita para presos e perseguidos pelo regime. Essas imagens, feitas por militantes há mais de 40 anos, eram quase inéditas até serem resgatadas pela diretora.

Anistia 79 – Mostra de Cinema de Tiradentes

A anistia de 1979 nasceu em um contexto de transição de um regime autoritário para a democracia e foi reivindicada por movimentos que exigiam a libertação de presos políticos, o retorno de exilados e a restituição de direitos cassados, sendo assim uma demanda de reintegração de opositores perseguidos pelo Estado. Já a anistia hoje defendida por setores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro surge em um cenário democrático consolidado e busca extinguir a responsabilização por atos investigados como atentatórios à ordem constitucional. A diferença fundamental está no sentido político: enquanto a anistia de 1979 foi apresentada como instrumento de abertura e ampliação democrática, a atual é debatida no contexto de ataques à própria democracia.

O mérito documental do filme reside justamente na capacidade de articular memória e tensão histórica sem perder a dimensão humana das pessoas envolvidas. Ao costurar depoimentos, registros de época e material de arquivo, a obra não apenas revisita um momento decisivo da história brasileira, mas evidencia como os efeitos daquele pacto político ainda reverberam no presente. Isso transforma o documentário em um espaço de reflexão crítica sobre justiça, memória e responsabilidade histórica.

A montagem confia na força dos testemunhos e dos registros históricos para construir sentido, permitindo que o espectador participe ativamente da reflexão. A anistia não foi apenas um ato jurídico, mas uma experiência vivida por corpos, famílias e trajetórias marcadas pela violência e pela espera.

Ao revisitar a Lei da Anistia sob a perspectiva de quem foi impactado por seus desdobramentos, o filme reafirma o papel do cinema como instrumento de memória e questionamento. Em um momento em que o termo “anistia” volta ao centro do debate público, a obra se torna ainda mais urgente, lembrando que decisões políticas carregam consequências históricas profundas.

 

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes (2026)

Anistia 79
Brasil, 2026, 104min.
Direção: Anita Leandro
Roteiro: Anita Leandro e Alice de Andrade
Elenco: Hamilton dos Santos, Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco
Produção: Maria Flor Brazil e Alice de Andrade
Direção de Fotografia: Bené Machado
Música: Glaydson Mendes
Classificação: 12 Anos
Distribuição: Embaúba Filmes

 

 

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