Michael - Universal Pictures (2026)

Crítica | Michael

Michael e a trasnformação de memória em espetáculo.

Nos últimos anos as cinebiografias de artistas musicais tomaram conta do cinema norteamericano e, esse mês, um dos filmes mais esperados do ano, que conta a história do lendário Rei do Pop. Estrelado por ninguém menos que Jaafar Jackson, o sobrinho de Michael, o filme honra a história do cantor, com algumas controvérsias relacionadas a produção.

Vale a pena ressaltar que a história do filme acaba em 1988, após a turnê da Vitória e antes do Rancho Neverland, que foi o que sujou o nome do artista e o levou ao declínio com relação a mídia. A decisão de encerrar a história em 1988 não é só estrutural. É uma escolha que muda tudo. Porque esse corte deixa de fora justamente o período mais controverso da vida dele: tudo que envolve o Neverland Ranch, as acusações, o desgaste público. E aí começa o incômodo… ou a defesa, dependendo de quem assiste.

Michael – Universal Pictures (2026)

O filme não é mentiroso, ele apenas escolheu onde parar. E isso, no cinema, é válido. Nem toda cinebiografia precisa contar tudo. Aqui, a proposta sempre foi focar no artista, na sensibilidade, no lado humano, naquele Michael que encantou o mundo antes de virar alvo constante da mídia. E isso tudo ele faz com maestria. Ter o Jaafar Jackson no papel principal, com a família diretamente envolvida, muda o jogo. Porque aí levanta dúvidas acerca da escalação ter sido unicamente para preservar a versão da família sobre quem ele foi, com a intenção de “proteger o seu legado”

Mas seria extremamente injusto justificar a ecolha de Jaafar à apenas uma decisão familiar. O nível de entrega dele no papel passa longe disso. Antes mesmo das filmagens, Jaafar passou anos se preparando em silêncio, estudando não só os movimentos, mas o comportamento, a voz e até o estado emocional do tio. Ele treinava por horas seguidas, repetindo coreografias até atingir precisão absoluta, ao ponto de dançar até os pés sangrarem em alguns momentos de preparação.

Michael – Universal Pictures (2026)

Mais do que imitação, o processo foi de imersão. Ele trabalhou com coreógrafos que já haviam colaborado com o próprio Michael, buscou acessar materiais pessoais e chegou a viver em ambientes ligados à história da família para se aproximar ainda mais do personagem. O próprio diretor descreve essa transformação como algo quase “espiritual”, não só técnico. Isso fica evidente na tela: não é só alguém reproduzindo passos icônicos, mas alguém tentando sentir o peso de cada gesto e de cada performance. Jaafar Jackson está simplesmente visceral, magnético e arrebatador. Há momentos em que você não está assistindo a um ator, você está diante de um fenômeno acontecendo em tempo real. Jaafar Jackson honra com louvor a mem[oria de seu tio.

Colman Domingo entrega um desempenho brutal, denso e profundamente incômodo como o pai de Michael, com uma presença sufocante e autoritária.

Michael – Universal Pictures (2026)

Existe uma crítica forte circulando que diz exatamente isso: que o filme funciona quase como uma reintrodução do ídolo. Uma forma de fazer o público voltar a amar o Michael antes de encarar (ou talvez evitar) as partes mais difíceis da história. E, sendo honesto, essa leitura faz sentido. Mas é extremamente simplista reduzir o filme à esse argumento.

Michael (2026) não tenta recontar a vida inteira de Michael Jackson. Ele define um ponto de chegada claro e constrói sua narrativa até ali. Se o filme terminasse já nos anos finais da vida do artista ignorando tudo o que envolve o Neverland Ranch e as polêmicas, aí sim seria possível falar em omissão ou distorção. Mas não é o caso. O recorte vem antes disso, e, dentro desse limite, o filme não esconde nada;  ele simplesmente não chega nesse capítulo. Retrata a grandiosidade de Michael exatamente da forma como ela foi.

O longa não está tentando limpar a imagem de Michael, mas sim resgatar uma versão dele que existiu e que, por muito tempo, foi a que o mundo conheceu: o artista genial, sensível, humano, gentil, que conquistou milhões antes de se tornar alvo constante da mídia. Nesse sentido, o filme não retrata um “Michael midiático”, moldado pelas controvérsias, mas um Michael mais íntimo, mais próximo de quem ele era naquele momento da vida. E talvez seja justamente aí que está a força da proposta: lembrar por que as pessoas se apaixonaram por ele em primeiro lugar.

Michael – Universal Pictures (2026)

Michael (2026) é um retrato humano de um ídolo que parou o mundo. Um completo e visceral espetáculo, conduzido magistralmente tal qual um maestro conduz sua orquestra.

 

Crítica por Pedro Gomes.

 

Michael | Michael
Estados Unidos, 2026, 127min.
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long
Produção: John Branca, Graham King, John McClain
Direção de Fotografia: Dion Beebe
Música: Lior Rosner, Michael Jackson
Classificação: 16 Anos
Distribuição: Universal Pictures

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