Veneno Para Las Hadas - Filmicca (1986 | 2026: Restauração 4K) | Imagem: Cortesia Filmicca

Crítica | Veneno Para as Fadas (Veneno Para Las Hadas) [Restauração 4K]

Uma obra-prima da estética gótica latino-americana.

Veneno para las Hadas é considerado um clássico do horror latino-american, conseguindo transformar o imaginário infantil em algo profundamente perturbador sem depender de violência explícita ou monstros tradicionais. O filme trabalha quase inteiramente com sugestão, atmosfera e psicologia, algo que era raro no cinema de terror mexicano da época. Além disso, ele subverte a ideia da infância inocente: as crianças são o centro emocional da narrativa, mas também a origem do medo.

Na trama, acompanhamos Flavia e sua família rica se mudarem para uma nova cidade, onde a jovem conhece uma estranha estudante chamada Verónica, que conta para Flavia que ela é uma bruxa. As duas meninas tornam-se amigas, mas a influência negativa de Verónica sobre Flavia logo se manifesta quando elas viajam juntas. A relação entre Verónica e Flavia é praticamente uma dinâmica de poder tóxica: uma menina inventa um mundo mágico sombrio, e a outra passa a acreditar nele até perder a fronteira entre fantasia e realidade.

Veneno Para Las Hadas – Filmicca (1986 | 2026: Restauração 4K) | Imagem: Cortesia Filmicca

A direção de Carlos Enrique Taboada é um dos pontos mais altos desse longa. Ele filma o universo infantil de maneira séria, quase documental, evitando caricaturas. A câmera frequentemente permanece na altura das crianças, e muitos adultos aparecem cortados ou fora de quadro, como se o mundo estivesse sendo percebido apenas pela lógica delas. Isso cria uma sensação muito íntima e subjetiva.

Taboada constrói uma narrativa profundamente marcada por manipulação, solidão e crença. Verónica utiliza o imaginário sobrenatural como instrumento de poder, criando uma relação tóxica em que medo e fascínio caminham juntos. A ausência emocional dos adultos e a solidão das protagonistas fazem com que a fantasia se torne uma forma de preenchimento afetivo e controle psicológico. O filme revela como a necessidade de acreditar, seja em bruxas, maldições ou histórias inventadas, pode nascer do abandono, da insegurança e do desejo desesperado de pertencimento.

Veneno Para Las Hadas – Filmicca (1986 | 2026: Restauração 4K) | Imagem: Cortesia Filmicca

Embora separados por contextos culturais distintos, “Veneno para as Fadas” e “O Espírito da Colmeia” compartilham um mesmo fascínio pelo olhar infantil como lente para interpretar o desconhecido. Ambos os filmes retratam meninas que transformam a realidade através da imaginação, confundindo fantasia e verdade em mundos silenciosos, melancólicos e emocionalmente fragmentados. Enquanto Ana projeta em Frankenstein suas dúvidas e medos sobre a existência, Verónica cria uma mitologia de bruxaria capaz de contaminar a percepção de quem está ao seu redor. Nos dois casos, o terror não nasce de monstros concretos, mas da maneira como a infância absorve o invisível e o transforma em experiência real.

Nos dois filmes, a infância é retratada como um território instável onde fantasia, medo e realidade coexistem sem fronteiras definidas. As crianças não enxergam o mundo a partir da lógica racional dos adultos, mas através de emoções, imagens e crenças que transformam o cotidiano em algo misterioso e inquietante. Tanto “O Espírito da Colmeia” quanto “Veneno para as Fadas” entendem a imaginação infantil não como ingenuidade, mas como uma força capaz de reinterpretar a realidade, criando espaços onde o sonho e o horror caminham lado a lado.

Veneno Para Las Hadas – Filmicca (1986 | 2026: Restauração 4K) | Imagem: Cortesia Filmicca

Mais do que um filme de horror, “Veneno para as Fadas” permanece atual por compreender que os maiores medos nascem daquilo que não pode ser totalmente explicado. Carlos Enrique Taboada transforma pequenos gestos, silêncios e brincadeiras em elementos de tensão constante, criando uma obra em que o terror emerge da fragilidade emocional e da maneira como histórias podem moldar comportamentos e destruir inocências. Ao evitar respostas definitivas e confiar na subjetividade do olhar infantil, o filme constrói uma experiência inquietante justamente porque nunca permite distinguir completamente onde termina a imaginação e onde começa a verdade.

 

Crítica por Pedro Gomes.

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Veneno Para as Fadas | Veneno Para Las Hadas 
México, 1986/2026, 90min.
Direção: Carlos Enrique Taboada
Roteiro: Carlos Enrique Taboada
Elenco: Ana Patricia Rojo, Elsa Maria Gutierrez, Leonor Llausás
Produção: Héctor López Lechuga
Direção de Fotografia: Lupe García
Música: Carlos Jiménez Mabarak
Classificação: 16 Anos
Distribuição: Filmicca

 

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