Um mergulho fascinante na geopolítica do petróleo em um resgate histórico impressionante.
An Incomplete Calendar é um documentário que redescobre a história, ao invés de apenas contar. Partindo da descoberta de um obscuro LP produzido para celebrar a OPEP, a diretora Sanaz Sohrabi constrói uma investigação fascinante sobre um período em que o petróleo representava muito mais do que uma fonte de riqueza. O filme nos leva por arquivos, gravações e memórias para revelar um momento em que países separados por continentes tentaram imaginar um projeto comum de solidariedade política.
A premissa do longa já é bastante curiosa. Em 1980, um coral venezuelano gravou Rhymes and Songs for OPEC, um álbum que reunia canções representando todos os países membros da organização. O que poderia soar como uma simples curiosidade histórica logo se transforma em algo muito maior. A partir desse objeto quase esquecido e que se tornou uma raridade, o documentário abre portas para discussões sobre nacionalismo, diplomacia, movimentos de libertação e a própria identidade dos países produtores de petróleo durante as décadas de 1960 e 1970.

O grande mérito de Sohrabi está em transformar um tema potencialmente árido em uma experiência envolvente. O filme possui a estrutura de uma pesquisa, mas nunca assume a rigidez de uma aula tradicional. Pelo contrário: cada descoberta parece levar naturalmente à próxima, criando a sensação de acompanhar um professor apaixonado por seu tema e disposto a compartilhar conexões que raramente aparecem nos livros mais populares de História ou nas aulas convencionais.
Ao longo da narrativa, fica evidente que o verdadeiro assunto não é o petróleo em si, mas aquilo que ele representava naquele contexto. O documentário recupera um período em que a OPEP buscava exercer influência política global, utilizando seus recursos naturais como instrumento de soberania e pressão diplomática. Nesse cenário, a luta palestina, o pan-arabismo e as relações entre Oriente Médio e América Latina surgem como parte de um projeto internacional que hoje parece difícil de imaginar.

Nossa percepção contemporânea sobre a OPEP muitas vezes se limita ao preço do petróleo, mas o material contido no documentário faz com que possamos enxergar que esses países realmente tentaram construir algo maior um dia. O LP encontrado pela diretora funciona como um símbolo dessa ambição: uma tentativa de unir culturas, idiomas e histórias distintas sob uma mesma ideia de solidariedade.
O álbum celebra uma visão coletiva justamente quando as fissuras começavam a aparecer. A sensação é a de observar uma fotografia tirada segundos antes de uma ruptura inevitável. Quanto mais entendemos o contexto histórico, mais o disco deixa de ser uma simples curiosidade e passa a representar os sonhos, contradições e limites de um projeto político que jamais se concretizou plenamente.

No fim, An Incomplete Calendar é um daqueles documentários que ampliam nosso entendimento sobre o mundo. Sem recorrer a simplificações ou discursos didáticos em excesso, Sanaz Sohrabi transforma um objeto esquecido em uma janela para debates sobre poder, memória e identidade. Seu trabalho recompensa o espectador com uma experiência intelectualmente estimulante.
Crítica por Pedro Gomes.
Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Internacional)
An Incomplete Calendar | Um Calendário Incompleto
Canadá, Irã, Turquia, Vanuatu, Venezuela, 2026, 70min.
Direção: Sanaz Sohrabi
Roteiro: Sanaz Sohrabi
Produção: Burak Çevik
Direção de Fotografia: Siavash Naghshbandi, Ignacio Márquez
Música: Jeremy Leon, Chris Leon
Classificação: 12 Anos
Distribuição: Não Definida












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