Um retrato intimista, criativo e corajoso das relações maternais.
A história acompanha uma cineasta marroquina vivendo em Nova York enquanto tenta compreender a distância que existe entre ela e sua mãe. Não apenas a distância geográfica entre dois continentes, mas principalmente a distância emocional criada após sua sexualidade ser revelada. Existe amor entre as duas, isso nunca está em dúvida. O que existe também é silêncio. Um silêncio doloroso, prolongado e cheio de coisas que nunca foram ditas.
É justamente aí que o filme encontra sua maior beleza. Em vez de retratar a mãe como uma vilã ou transformar a discussão sobre sexualidade em um conflito simplista, Bouchra entende que relações familiares raramente funcionam dessa maneira. O amor continua existindo mesmo quando há incompreensão. O afeto continua existindo mesmo quando há rejeição. A obra encontra humanidade justamente nessa contradição, explorando a dificuldade que mãe e filha têm de encontrar uma linguagem capaz de aproximá-las novamente.

Em vez de seguir pelo caminho mais óbvio de um documentário autobiográfico ou de uma narrativa tradicional, o filme transforma seu próprio processo de criação em parte da experiência. É um filme que constantemente olha para si mesmo, questionando como uma história pode ser contada enquanto a está contando. Essa estrutura de Mise en abyme poderia facilmente soar pretensiosa, mas aqui ela encontra uma naturalidade surpreendente.
Além disso, existe algo de profundamente íntimo na maneira como a obra aborda a relação entre a diretora e sua mãe. O filme não parece interessado em oferecer respostas definitivas ou grandes revelações dramáticas. Seu interesse está justamente nas zonas cinzentas que existem entre duas pessoas que se amam, mas que nem sempre conseguem se compreender completamente.

A escolha pela animação é talvez seu elemento mais fascinante. Transformar todos os personagens em animais antropomórficos cria um curioso paradoxo: ao mesmo tempo em que nos afasta da realidade literal, também nos aproxima emocionalmente dela.
Durante toda a sessão, fui constantemente lembrado de Tails Noir e Fantastic Mr. Fox. Não porque exista necessariamente uma influência direta entre essas obras, mas porque todas compartilham essa capacidade de utilizar figuras antropomórficas e universos estilizados para falar sobre sentimentos extremamente humanos. Assim como acontece nessas obras, os animais de Bouchra jamais funcionam como uma simples escolha estética. Eles se tornam uma extensão das personalidades e das emoções dos personagens.
Também é importante ressaltar a forma como o filme transforma vulnerabilidade em linguagem. O bloqueio criativo, as dificuldades de comunicação e as dúvidas sobre a própria história deixam de ser obstáculos e passam a integrar a narrativa. Em muitos momentos, a sensação é de que estamos assistindo não apenas a um filme, mas ao próprio ato de alguém tentando compreender sua vida através da arte.

No fim, Bouchra é uma obra que encontra força justamente em sua delicadeza. É uma animação que não busca impressionar através de grandes acontecimentos, mas através da honestidade de suas emoções. O filme prova que algumas histórias se tornam ainda mais verdadeiras quando abandonam o realismo e abraçam a linguagem única da animação. Fora da Mostra Pequenos Olhares, animações costumam ser raridade no circuito do Olhar de Cinema, e Bouchra prova o quanto essa linguagem ainda pode abrir caminhos narrativos únicos.
Crítica por Pedro Gomes.
Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Internacional)

Bouchra
Itália, Marrocos, Estados Unidos, 2025, 83min.
Direção: Orian Barki, Meriem Benani
Roteiro: Orian Barki, Meriem Bennani, Ayla Mrabet,
Elenco: Ariana Faye Allensworth, Fayçal Azizi, Orian Barki
Produção: Felipe Guimarães
Direção de Fotografia: John Michael Boling
Música: Flavien Berger, Zsela
Classificação: 14 Anos
Distribuição: Não definida.












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