A Noite e os Dias de Miguel Burnier (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Crítica | A Noite e os Dias de Miguel Burnier [15° Olhar de Cinema]

Os mais belos registros de amizade e união em meio a um futuro inauspicioso

A Noite e os Dias de Miguel Burnier é um daqueles documentários que machucam justamente porque não precisam exagerar em nada. A dor já está ali. Não é preciso criar grandes conflitos ou momentos de impacto artificial quando a própria realidade dos personagens carrega um peso tão profundo. O filme observa pessoas que vivem em uma pequena região de mineradores em Ouro Preto lutando pela sua sobrevivência e pela própria memória. Em meio à todas as dores, uma alegria momentânea em comum sempre visita todos na região: o álcool.

Estamos observando talvez o que seja um dos últimos registros daquela comunidade. E apesar do vazio físico de um lugar que perdeu parte de sua população e de sua vitalidade, também acompanha o espectador o vazio emocional de personagens que parecem ter sido privados de qualquer perspectiva. Muitos deles passaram a vida trabalhando de forma independente, construindo sua própria relação com a terra e com a mineração. Quando essa possibilidade desaparece, o que sobra não é apenas a falta de renda. É a perda de propósito.

A Noite e os Dias de Miguel Burnier (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Nesse contexto, o alcoolismo aparece como uma consequência quase inevitável daquela realidade. O documentário não trata a bebida como um vício isolado, mas como uma resposta ao tédio, à desesperança e à sensação de abandono. São homens que acordam sem ter para onde ir, sem ter o que construir e sem conseguir enxergar qualquer possibilidade de mudança. Existe algo devastador na naturalidade com que eles convivem com isso.

A força do filme está justamente em sua honestidade. Não há narração explicando o que devemos sentir, nem tentativas de manipular emocionalmente o espectador. A câmera apenas observa aquelas vidas seguirem adiante, e isso é suficiente. Cada conversa, cada silêncio e cada olhar carregam uma melancolia que parece contaminar toda a cidade. O diretor evita qualquer tipo de sensacionalismo ao máximo, trazendo veracidade em cada um de seus quadros.

A Noite e os Dias de Miguel Burnier (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

O filme fala sobre Miguel Burnier, mas poderia estar falando sobre inúmeras cidades ou distritos de Minas Gerais que viram suas histórias serem engolidas por interesses de empresas maiores do que elas próprias. É uma obra profundamente triste, mas também necessária. Porque transforma números, relatórios e disputas econômicas em algo muito mais difícil de ignorar: rostos, histórias e vidas reais. E quando o filme termina, o que permanece não é a discussão sobre mineração. É o peso humano de tudo aquilo que foi perdido. De todo um distrito que foi impedido de sonhar.

Embora a falta de perspectivas e as consequências da mineração, é justamente na amizade e nas relações construídas entre aquelas pessoas que a obra encontra parte de sua luz. Em meio ao desemprego, ao alcoolismo e à sensação constante de estagnação, o que impede que aqueles personagens sejam completamente engolidos pela desesperança é a companhia uns dos outros. As conversas, as danças, as brincadeiras, os silêncios compartilhados e a simples presença de alguém para dividir mais um dia difícil revelam uma forma de afeto profundamente mineira, muitas vezes expressa menos por palavras do que pela permanência. É uma amizade que não resolve os problemas daquela comunidade, mas que funciona como resistência.

A Noite e os Dias de Miguel Burnier (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

No fim, A Noite e os Dias de Miguel Burnier não foca em sensacionalismo e vitimismo, mas sim na beleza, na amizade, e na vida de um lugar que se recusa a desistir. João Dumans encontra retrata força e luz em cada uma das pessoas presentes ali, embora que em uma situação desesperançosa. Que este documentário consiga ajudar a mudar o destino desse e de vários outros distritos de Minas Gerais, explorados pela mineração.

Crítica por Pedro Gomes.

Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Brasileira)

 

A Noite e os Dias de Miguel Burnier
Brasil, 2026, 80min.
Direção: João Dumans
Elenco: Claudete Carlos, José da Conceição, Rita Carolina,
Produção: Laura Godoy
Direção de Fotografia: João Dumans
Música: Victor de Mello Lopes
Classificação: 12 Anos
Distribuição: Olhar Filmes

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