Rosebush Pruning - Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Rosebush Pruning [28º Festival do Rio]

Um banho de loucura sensual e hipnótico

Rosebush Pruning, é uma tragicomédia absurda dirigida pelo brasileiro Karim Aïnouz e escrito por Efthimis Filippou, inspirado em I Pugni in Tasca (De Punhos Cerrados), de Marco Bellocchio.

A história acompanha quatro irmãos americanos extremamente ricos, Jack, Ed, Anna e Robert, que vivem praticamente isolados do mundo em uma mansão luxuosa. Eles são sustentados por uma fortuna herdada e passam os dias preocupados com roupas, desejos, sexo e nada de absolutamente relevante. O patriarca de família é cego e a mãe morreu devorada por lobos. A família mantém inclusive uma escultura de seu corpo nu dentro da casa, como uma espécie de monumento à sua memória, pois ninguém sequer sabe a causa real da morte dela, muito menos onde está o corpo.

Quando Jack, o irmão mais velho e espécie de eixo da família, anuncia que pretende sair da mansão para viver com Martha, sua namorada, a estrutura começa a desmoronar.

Rosebush Pruning – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Karim compara a família e sua estrutura a uma roseira, criando uma ambiguidade fascinante. “Pessoas são rosas, famílias são roseiras, e roseiras precisam ser podadas.” A ideia ecoa durante o filme e traz à tona o fato de que podar, ao mesmo tempo em que significa destruir, também pode ser o que permite que algo saudável cresça. Para aquela família continuar existindo, talvez seja necessário destruir a forma como ela existe. A poda, portanto, também se relaciona à necessidade de romper um ciclo que parece se reproduzir de geração em geração, mesmo que essa ruptura também carregue consigo uma dose de violência.

Essa sensação de uma família construída como um pequeno universo fechado também aproxima Rosebush Pruning de Dente Canino, de Yorgos Lanthimos, e até de “Dollhouse”, de Melanie Martinez. Em Dente Canino, a casa também funciona como um mundo à parte, onde os filhos são mantidos afastados da realidade e submetidos às regras criadas pelos pais. Já em “Dollhouse”, a família perfeita apresentada para o mundo é apenas uma fachada para esconder tudo aquilo que acontece dentro de casa. Em Rosebush Pruning, a lógica é ainda mais perversa porque o luxo e a liberdade econômica não libertam aqueles personagens: eles ajudam a construir a própria prisão. Nos três casos, existe essa contradição entre a imagem de uma família protegida e a violência escondida por trás dela, como se a casa pudesse ser, ao mesmo tempo, o que abriga e o que aprisiona os personagens.

Rosebush Pruning – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Existe dinheiro suficiente para que todos possam ir embora e viver em qualquer lugar do mundo, mas, ainda assim, ninguém parece realmente conseguir escapar. A riqueza, que deveria representar liberdade, produz justamente o contrário: isolamento. Eles vivem em uma espécie de bolha econômica e emocional, afastados do trabalho, das dificuldades materiais e das consequências do mundo exterior, sem possibilidade de sequer cogitar sair dessa zona de conforto. É como se a fortuna tivesse eliminado qualquer necessidade de contato com a realidade, permitindo que aquela família existisse apenas dentro das próprias regras.

Dentro dessa estrutura, a cegueira do pai ganha um significado bastante evidente. Ele é a principal figura de autoridade daquela família, mas não consegue enxergar. Não precisa compreender os filhos, conhecer seus sentimentos ou sequer perceber fisicamente o que está diante dele para continuar exercendo poder sobre todos. A ironia fica ainda maior quando ele exige descrições detalhadas de Martha e transforma o corpo dela em objeto de avaliação masculina, perguntando o formato do corpo, dos seios, isso tudo em uma mesa de jantar, como se o físico da personagem feminina fosse a única coisa que importa, tal qual a estátua de sua esposa nua em sua casa. O afeto entre a família é completamente estranho e distorcido, eles vivem em função da riqueza e em um mundo próprio que não os permite qualquer demonstração de amor a não ser com bens materiais.

O sexo aparece como uma figura central para compreensão do longa. O desejo quase nunca aparece simplesmente como desejo, porque os corpos estão constantemente envolvidos em relações de controle, submissão, provocação e disputa. O sexo se torna uma maneira de estabelecer quem possui quem, como se aquilo que deveria representar intimidade fosse contaminado pela mesma violência que organiza todas as outras relações da família.

Rosebush Pruning – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

A fotografia de Rosebush Pruning encontra beleza nos planos abertos e frequentemente coloca a família pequena diante da imensidão da casa, do jardim e da paisagem, como se o espectador fosse convidado a contemplar, à distância, a perfeição daquela vida que existe apenas na superfície. Há algo quase hipnótico nessa composição, porque a câmera não tem pressa de abandonar a beleza externa daquela família, mesmo quando já sabemos o que existe por trás dela. A direção de Karim Aïnouz transforma esse contraste em parte essencial da experiência, e entre as atuações, Elle Fanning constrói uma personagem que consegue transitar entre fragilidade, estranheza, manipulação e uma certa imprevisibilidade sem nunca deixar que uma característica se sobreponha à outra.

Em suma, por trás daquela família existe ainda uma representação possível do próprio Ocidente contemporâneo. Uma sociedade extremamente rica, protegida por seus próprios privilégios e cada vez mais distante das consequências de suas escolhas. A casa garante o isolamento e o dinheiro garante que tudo continue funcionando  como deveria. Os personagens herdaram uma estrutura que não construíram, vivem cercados por excessos e parecem incapazes de imaginar uma existência fora dela. Rosebush Pruning sabe exatamente onde depositar seu erotismo, sua sátira e seu drama familiar. É uma obra insanamente bem costurada que nos permite abraçar essa viagem de selvageria e poder ao mesmo tempo que nos choca com o que está sendo projetado.

 

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

 

Rosebush Pruning
Brasil, Reino Unido, Canadá, 2026, 95min.
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Efthimis Filippou
Elenco: Callum Turner, Riley Keough, Elle Fanning
Produção: Viola Fügen, Michael Weber, Simone Gattoni
Direção de Fotografia: Hélène Louvart
Música: Matthew Herbert
Classificação: 18 anos

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