Coward - Festival do Rio (2026)

Crítica | Covarde (Coward) [28º Festival do Rio]

Covarde reafirma o talento de Lukas Dhont para encontrar humanidade em personagens atravessados por circunstâncias que negam qualquer vislumbre de felicidade.

Depois de conquistar o mundo com o aclamado Close, Lukas Dhont retorna com Covarde, seu novo drama LGBT. Desta vez, o diretor leva os holofotes para a Primeira Guerra Mundial, acompanhando Pierre e Francis, dois jovens soldados que montam uma companhia de teatro improvisada para levar um pouco de alegria aos companheiros feridos e àqueles que aguardam a morte. É nesse cenário de brutalidade e incerteza que os dois desenvolvem uma paixão que desafia as convenções sociais de uma época em que o amor entre pessoas do mesmo gênero era cercado de repressão e preconceito.

Dhont constrói esse romance com leveza e naturalidade, permitindo que a intimidade entre os protagonistas cresça sem pressa, em meio à todas as adversidades que os cercam. À medida que a relação se aprofunda, cresce também o desejo de vê-los felizes, como se o espectador encontrasse naquele amor uma pequena possibilidade de esperança em meio a tanta crueldade. A habilidade do diretor em conduzir a narrativa está justamente em compreender quando avançar e quando deixar a história respirar, sem sacrificar a delicadeza dos sentimentos em favor de uma progressão dramática excessivamente calculada.

Coward – Festival do Rio (2026)

A parceria entre Dhont e Frank van den Eeden, responsável também por seus trabalhos anteriores, reafirma a sintonia artística entre os dois. É difícil imaginar outra abordagem visual para uma história como essa. Cada enquadramento parece uma pintura, seja na composição dos corpos em cena, seja na maneira como a paisagem absorve a melancolia daqueles jovens ou na forma que os corpos se entrelaçam nas cenas mais românticas. Até mesmo o horror da guerra ganha uma dimensão contemplativa, sem que sua brutalidade seja amenizada. Há uma beleza dolorosa nas imagens, capaz de permanecer na memória por muito tempo.

Outra escolha acertada do diretor é abordar a guerra para além do front. Em vez de concentrar a narrativa nos tiros e nas batalhas, Covarde encontra sua força nos intervalos entre os confrontos: nas conversas, nas risadas, nos treinamentos e nas pequenas tentativas de preservar alguma normalidade. Mas também na dor de perder os companheiros e na necessidade brutal de empilhar seus corpos ao final dos combates. Ao deslocar o olhar para esses momentos, Lukas aproxima o espectador da experiência cotidiana dos soldados e evidencia a juventude sendo consumida por uma violência que transforma a morte em rotina. Quanto mais conhecemos esses personagens, mais difícil se torna aceitar o destino que lhes foi imposto.

Coward – Festival do Rio (2026)

Os protagonistas, por sua vez, compartilham uma sintonia estonteante. A química entre os atores se manifesta desde os primeiros momentos de amizade, fazendo com que a aproximação entre Pierre e Francis pareça inteiramente espontânea. O sentimento não surge como uma resposta automática ao sofrimento, mas se desenvolve a partir da convivência, da confiança e da descoberta de uma intimidade que nenhum dos dois parece saber nomear de imediato. Em meio a um ambiente tão hostil, essa aproximação ganha uma ternura particular quando percebemos que são dois jovens descobrindo os próprios sentimentos enquanto tentam compreender o que significa desejar alguém em um mundo que não lhes oferece espaço para isso. Há uma inocência comovente na maneira como o filme acompanha essa descoberta, sem reduzir a relação à transgressão das normas de seu tempo.

Todavia, o desfecho acaba sendo explicativo demais, como se o filme sentisse a necessidade de reforçar conclusões que sua própria narrativa já havia construído com precisão. Talvez exista a intenção de amarrar todas as questões levantadas ao longo da trama, mas a explicitação de determinadas ideias diminui um pouco a força daquilo que, até então, funcionava bem nas entrelinhas. É uma escolha que destoa da delicadeza com que Dhont conduz boa parte da obra, especialmente porque a relação entre os protagonistas demonstra, ao longo de todo o percurso, a capacidade do diretor de confiar na imagem, nos gestos e na percepção do espectador.

Coward – Festival do Rio (2026)

Ainda assim, Covarde reafirma o talento de Lukas Dhont para encontrar humanidade em personagens atravessados por circunstâncias que negam qualquer vislumbre de felicidade. O filme é um retrato doloroso da juventude, da descoberta do amor e da fragilidade de uma existência constantemente ameaçada pela violência. A direção sensível e a sintonia dos protagonistas fazem dessa experiência um filme de rara ternura, cuja beleza não está em ignorar os horrores do mundo, mas em encontrar, mesmo diante deles, razões para continuar.

 

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

 

Covarde | Coward
Bélgica. França, Países Baixos, 2026, 120min.
Direção: Lukas Dhont
Roteiro: Lukas Dhont, Angelo Tijssens
Elenco: Emmanuel Macchia, Valentin Campagne, Jef Jacobs
Produção: Michiel Dhont, Juliette Schrameck, Laurette Schillings
Direção de Fotografia: Frank van den Eeden
Música: Valentin Hadjadj
Classificação: 14 anos

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