Quase Inverno (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Crítica | Quase Inverno [15° Olhar de Cinema]

Um espetáculo teatral pouco impactante.

Quase Inverno, novo longa de Rodrigo Grota, transporta o espectador para uma fazenda no norte do Paraná durante os anos 1970. A história acompanha três irmãs que retornam à casa da família diante do agravamento da saúde da mãe, reencontrando um irmão que permaneceu no local enquanto memórias, ressentimentos e conflitos antigos voltam à superfície. Inspirado livremente em As Três Irmãs, de Tchekhov, o filme aposta em uma encenação teatralizada e em personagens que carregam o peso de um passado que insiste em não passar.

Desde os primeiros minutos, fica claro que Grota está mais interessado nas palavras e menos nas ações. Os diálogos ocupam o centro da narrativa e funcionam como principal ferramenta para revelar emoções, traumas e relações familiares desgastadas. É uma escolha legítima e coerente com a proposta da obra, mas que exige que cada conversa carregue uma tensão capaz de sustentar o interesse do espectador ao longo do percurso, o que infelizmente não acontece.

Quase Inverno (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Muitos diálogos parecem explicar sentimentos que já poderiam ser compreendidos através dos silêncios, dos gestos ou da própria presença dos personagens naquele espaço carregado de história. Em alguns momentos, a sensação é de que o filme verbaliza demais aquilo que seria mais poderoso se permanecesse apenas sugerido.

Algo semelhante acontece com as atuações. O elenco demonstra entrega à proposta estilizada do diretor, mas frequentemente as interpretações parecem buscar uma intensidade que nem sempre encontra respaldo na situação dramática. Em vez de aproximar o espectador dos conflitos, certas cenas acabam criando uma distância inesperada, como se os personagens estivessem constantemente representando suas emoções em vez de simplesmente vivê-las, o que dá a atuação uma carga extremamente exagerada e desinteressante.

Quase Inverno (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

A atmosfera construída pela fazenda, quase isolada do mundo exterior, ajuda a reforçar a sensação de um tempo suspenso, onde velhas dores continuam circulando pelos corredores e pelos campos. Existe um interesse genuíno em investigar as marcas deixadas pela família, pelo pertencimento e pelas escolhas que moldam uma vida inteira. Mesmo quando a execução não convence completamente, percebe-se a ambição de construir um drama sobre heranças emocionais e afetivas. A fotografia de Anderson Craveiro e a direção de arte de Oswaldo Eduardo Lioi são os pontos mais altos desse longa. Juntos, eles constroem uma atmosfera melancólica e contemplativa que comunica muito mais do que os próprios diálogos. A fazenda, os ambientes desgastados pelo tempo e os enquadramentos que valorizam o vazio e a distância entre os personagens ajudam a materializar os sentimentos que a narrativa tenta explorar.

Quase Inverno (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Quase Inverno é um filme que sabe exatamente o que deseja ser, mas nem sempre encontra os meios mais envolventes para alcançar seus objetivos. Sua confiança na força dos diálogos e das performances acaba evidenciando suas limitações.

 

Crítica por Pedro Gomes.

Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Brasileira)

 

Quase Inverno
Brasil, 2026, 92min.
Direção: Rodrigo Grota
Roteiro: Roberta Takamatsu, Rodrigo Grota
Elenco: Simone Iliescu, Ondina Clais, Luiza Quinteiro,
Produção: Guilherme Peraro
Direção de Fotografia: Anderson Craveiro
Música: Felipy Andrade
Classificação: 14 Anos

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