Um espetáculo teatral pouco impactante.
Quase Inverno, novo longa de Rodrigo Grota, transporta o espectador para uma fazenda no norte do Paraná durante os anos 1970. A história acompanha três irmãs que retornam à casa da família diante do agravamento da saúde da mãe, reencontrando um irmão que permaneceu no local enquanto memórias, ressentimentos e conflitos antigos voltam à superfície. Inspirado livremente em As Três Irmãs, de Tchekhov, o filme aposta em uma encenação teatralizada e em personagens que carregam o peso de um passado que insiste em não passar.
Desde os primeiros minutos, fica claro que Grota está mais interessado nas palavras e menos nas ações. Os diálogos ocupam o centro da narrativa e funcionam como principal ferramenta para revelar emoções, traumas e relações familiares desgastadas. É uma escolha legítima e coerente com a proposta da obra, mas que exige que cada conversa carregue uma tensão capaz de sustentar o interesse do espectador ao longo do percurso, o que infelizmente não acontece.

Muitos diálogos parecem explicar sentimentos que já poderiam ser compreendidos através dos silêncios, dos gestos ou da própria presença dos personagens naquele espaço carregado de história. Em alguns momentos, a sensação é de que o filme verbaliza demais aquilo que seria mais poderoso se permanecesse apenas sugerido.
Algo semelhante acontece com as atuações. O elenco demonstra entrega à proposta estilizada do diretor, mas frequentemente as interpretações parecem buscar uma intensidade que nem sempre encontra respaldo na situação dramática. Em vez de aproximar o espectador dos conflitos, certas cenas acabam criando uma distância inesperada, como se os personagens estivessem constantemente representando suas emoções em vez de simplesmente vivê-las, o que dá a atuação uma carga extremamente exagerada e desinteressante.

A atmosfera construída pela fazenda, quase isolada do mundo exterior, ajuda a reforçar a sensação de um tempo suspenso, onde velhas dores continuam circulando pelos corredores e pelos campos. Existe um interesse genuíno em investigar as marcas deixadas pela família, pelo pertencimento e pelas escolhas que moldam uma vida inteira. Mesmo quando a execução não convence completamente, percebe-se a ambição de construir um drama sobre heranças emocionais e afetivas. A fotografia de Anderson Craveiro e a direção de arte de Oswaldo Eduardo Lioi são os pontos mais altos desse longa. Juntos, eles constroem uma atmosfera melancólica e contemplativa que comunica muito mais do que os próprios diálogos. A fazenda, os ambientes desgastados pelo tempo e os enquadramentos que valorizam o vazio e a distância entre os personagens ajudam a materializar os sentimentos que a narrativa tenta explorar.

Quase Inverno é um filme que sabe exatamente o que deseja ser, mas nem sempre encontra os meios mais envolventes para alcançar seus objetivos. Sua confiança na força dos diálogos e das performances acaba evidenciando suas limitações.
Crítica por Pedro Gomes.
Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Brasileira)
Quase Inverno
Brasil, 2026, 92min.
Direção: Rodrigo Grota
Roteiro: Roberta Takamatsu, Rodrigo Grota
Elenco: Simone Iliescu, Ondina Clais, Luiza Quinteiro,
Produção: Guilherme Peraro
Direção de Fotografia: Anderson Craveiro
Música: Felipy Andrade
Classificação: 14 Anos












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