Salvação (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Crítica | Salvação (Kurtuluş) [15° Olhar de Cinema]

Um espelho que reflete um mundo onde estamos cada vez mais ansiosos para não viver.

Existe um tipo específico de pavor que se instala lentamente, não por meio de sustos fáceis ou choques baratos, mas pela certeza silenciosa de que algo terrível é inevitável. Salvação (Kurtuluş), de Emin Alper (vencedor  do Urso de Prata, Grande Prêmio do Júri, no Festival de Berlim) é construído inteiramente sobre esse pavor. Ambientado em uma remota vila montanhosa turca e inspirado no horrível massacre de 2009 em Bilge Village, no qual 44 pessoas foram mortas durante um ataque a um casamento, o filme não apenas retrata a violência, ele traz um estudo psicológico dos personagens que tornam tal violência possível. E o faz com uma precisão tão paciente e implacável que, quando o ato final chega, você se sente menos como um espectador e mais como um cúmplice.

Apesar de estarmos diante de uma tragédia iminente, Alper se recusa a apresentar vilões fáceis. O clã Hazeran, que permaneceu para proteger suas terras durante anos de conflito armado, agora enfrenta o retorno dos Bezari: os proprietários originais que fugiram e agora querem suas terras de volta. Para retratar essa narrativa, o diretor, que possui doutorado em história turca moderna, entende que a terra tem um caráter existencial, fazendo parte da memória de uma civilização. O filme nunca romantiza nenhum dos lados, e essa ambiguidade moral é justamente o que o torna tão desconfortável de assistir. Você se vê compreendendo a lógica de pessoas que preferiria descartar como monstros.

Salvação (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Nas atuações, o ponto mais alto do filme é Caner Cindoruk, que interpreta magistralmente Mesut, um homem mergulhado em ressentimento (em relação a quase todos a sua volta). A atuação de Cindoruk é assombrosa justamente por ser tão introspectiva, seu olhar distante torna-se praticamente hipnótico. Quando Mesut começa a ter pesadelos, ele não os interpreta como paranoia. Ele os interpreta como mensagens divinas. E esse é o cerne arrepiante do filme: a maneira como a mágoa, o ciúme e a insegurança podem ser transformados em profecias.

A direção de fotografia de Ahmet Sesigürgil e Barış Aygen resiste à beleza fácil, espelhando esse desmoronamento psicológico. Planos abertos de planícies áridas enfatizam o isolamento, enquanto o traçado da vila parece menos um lugar real e mais uma manifestação física da mente fragmentada de Mesut. O silêncio frequentemente substitui a música, forçando o espectador a vivenciar a tensão do vento sobre campos vazios ou passos distantes.

Salvação (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

O que eleva Salvação para além de um mero estudo da descida de um homem à loucura é sua ressonância política. O filme faz referência à dinâmica dos genocídios, onde líderes convencem seus seguidores de que a salvação exige a eliminação do outro. O título do filme carrega uma amarga ironia: a salvação para um lado significa a destruição para o outro. Além disso, a religião no longa é uma ferramenta para consolidar o poder e tudo se desenrola com uma plausibilidade arrepiante. Não há vilões caricatos e exagerados, apenas pessoas comuns, alimentando queixas comuns, lentamente convencidas de que a violência é justificável. Um filme essencial e implacavelmente sombrio, um espelho que reflete um mundo onde estamos cada vez mais ansiosos para não viver.

 

Crítica por Pedro Gomes.

Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Filme de Encerramento)

 

Salvação | Kurtuluş
Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia, 2026, 120min.
Direção: Emin Alper
Roteiro: Emin Alper
Elenco: Caner Cindoruk, Berkay Ateş, Feyyaz Duman
Produção: Nadir Öperli
Direção de Fotografia: Baris Aygen, Ahmet Sesigürgil
Música: Christiaan Verbeek
Classificação: 16 Anos
Distribuição: Pandora Filmes

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