Um mergulho devastador na fragilidade da memória e no amor que resiste ao esquecimento.
Há um momento em que a memória deixa de ser uma certeza e passa a ser um ato de fé. Você acredita que aquela pessoa ainda está ali porque lembra de quem ela foi ontem, embora hoje ela já não se lembre de você. O Alzheimer talvez seja uma das poucas doenças que transforma o amor em resistência diária: devolve o corpo todos os dias, mas leva embora, aos poucos, a pessoa que o habitava. Rouba lembranças, embaralha rostos, dissolve afetos e transforma conversas em pequenos labirintos sem saída. Para quem observa esse processo, o luto começa muito antes da despedida. Tangles compreende isso com uma delicadeza devastadora e nasce justamente desse espaço impossível de nomear: aquele em que alguém continua presente, mas já começa a desaparecer. É justamente nesse espaço quase impossível de traduzir que Tangles encontra sua beleza.
Na trama, a doença começa a apagar a personalidade vibrante de uma mãe, fazendo com que sua filha retorne ao convívio familiar para cuidar dela. Enquanto tenta se encontrar, ela terá de lidar com uma das coisas mais dolorosas da doença: a certeza da perda da mãe antes mesmo da morte. A primeira sequência do filme talvez resuma toda a proposta da narrativa. Ainda criança, Sarah tem medo do escuro. Para tranquilizá-la, sua mãe atravessa o quarto empunhando um sabre de luz, enfrentando monstros que existem apenas na imaginação da filha. É uma lembrança que provavelmente nunca aconteceu exatamente daquela maneira, mas isso pouco importa. O filme escolhe reconstruir o passado não como ele foi, e sim como permaneceu na memória de quem o viveu. Antes mesmo de falar sobre Alzheimer, Tangles já nos lembra que recordar nunca é um ato de precisão, mas de afeto.

É triste e belo o modo como a diretora conduz essa narrativa. Não existe glamourização, sensacionalismo, heróis ou vilões. Todos estão em uma luta diária contra os próprios sentimentos para amar alguém que dia após dia deixa de existir, apesar de continuar se alimentando, sentando à mesa, às vezes até saindo de casa. E isso dói. Dói carregar o peso de uma culpa incessante por deixar a própria vida de lado para aproveitar talvez os últimos resquícios de alguém, em uma despedida completamente lenta, cruel e vil.
Cada manhã, ao levantar da cama, a protagonista é tomada pelo medo, e sequer existe alguma cena que demonstre com clareza isso. A maturidade do filme e a profundidade de seus personagens são tamanhas, que podemos interpretar isso em cada silêncio, em cada olhar. O medo de não ser mais reconhecido é quase fatal. O filme parece enxergar não a doença, mas as pequenas rachaduras que ela causa no dia a dia: uma pergunta repetida pela décima vez, um silêncio constrangedor depois de uma memória que desapareceu antes mesmo de terminar de ser contada. São acontecimentos aparentemente banais, mas que carregam um peso devastador para quem já viveu algo semelhante. E há um grito de revolta nessa escolha: a protagonista dessa história nunca será a doença. Seu nome não precisa ser sequer citado.
Tangles tem um poder de acolhimento devastadoramente realista. A obra te faz sentir que o amor também se manifesta no cansaço, na culpa por perder a paciência, na vergonha de desejar, por um segundo, que tudo aquilo terminasse. Não existe julgamento, como se a animação abraçasse quem já atravessou esse caminho e dissesse, em silêncio, que sentir tudo isso também faz parte de amar alguém. A impotência pode impedir de muita coisa, mas não nos impede de amar.

A escolha dessa não-expositividade nos mostra o quão íntima é essa história. A diretora entende que algumas dores só existem porque o silêncio lhes concede espaço. Em vez de explicar sentimentos, prefere observá-los. Em vez de conduzir o espectador pela mão, permite que ele permaneça alguns segundos diante de um olhar vazio ou de uma pausa desconfortável. É um cinema que acredita na inteligência emocional do público e encontra justamente nessa quietude sua maior potência. E um dos pontos mais altos do filme é conseguir “explicar sem explicar” esse sofrimento contínuo para alguém que nunca viveu.
O preto e branco não funciona apenas como uma escolha estética. Ele parece nascer da própria memória. Como fotografias antigas guardadas em uma caixa que já começam a perder contraste, a imagem nunca disputa atenção com o drama; ela o potencializa. Quando pequenas manchas de cor finalmente surgem, elas não representam beleza, mas emoções que já não cabem dentro dos personagens. É um recurso discreto, porém devastador.
Há uma delicadeza extraordinária em seus traços, que preservam a simplicidade da graphic novel sem abrir mão de uma enorme expressividade. A beleza visual acompanha com maestria essa história que, acima de tudo, é sobre amor.

É impossível não lembrar de Malu, de Pedro Freire. Embora contem histórias completamente diferentes, ambos compartilham uma sensibilidade muito parecida ao retratar relações familiares marcadas pelo desgaste. Nenhum dos dois procura heróis ou vilões. Existe apenas gente tentando amar alguém enquanto lida com situações para as quais ninguém jamais está preparado. Nos dois filmes, o afeto convive com a exaustão, a ternura divide espaço com a impotência e o amor continua existindo mesmo quando já não resolve nada.
Talvez seja por isso que Tangles nunca pareça um filme sobre Alzheimer. A doença está presente do começo ao fim, mas ela funciona como um caminho para discutir algo muito maior: a permanência do amor quando a memória deixa de existir.
Quem somos nós sem as nossas memórias?
O sentimento que atravessa toda a narrativa é profundamente melancólico, mas não existe qualquer prazer em explorar essa tristeza. A dor nunca é exagerada. Ela simplesmente acontece, como acontece na vida, e essa honestidade torna a experiência tão emocionante quanto palpável. Quem nunca atravessou esse caminho talvez descubra pela primeira vez que o luto nem sempre começa na morte. Às vezes ele começa na primeira vez em que alguém esquece o seu nome. Na primeira conversa que já não faz sentido. No primeiro olhar vazio que substitui um reconhecimento. E quem já viveu isso talvez encontre em Tangles algo ainda mais raro do que identificação: acolhimento.

Assistir ao filme é tentar segurar algo que insiste em desaparecer. Cada conversa parece preciosa justamente porque pode ser a última em que um nome será reconhecido. Cada abraço carrega a urgência de quem já entendeu que o tempo deixou de caminhar para frente e passou a escorrer lentamente para o esquecimento. A animação transforma essa fragilidade em linguagem, como se desenhasse aquilo que nenhuma fotografia conseguiria preservar.
Talvez seja impossível sair de Tangles sem pensar nas pessoas que ainda temos ao nosso lado. Tangles não tenta responder ao Alzheimer. Apenas nos lembra que existem despedidas que começam muito antes da morte. A memória pode desaparecer, mas o amor continua procurando caminhos para existir. E talvez seja justamente isso que torna sua experiência tão devastadora: perceber que, quando todas as lembranças desaparecem, ainda resta alguém insistindo em amar quem já não consegue se lembrar de quem ele é.
Nossas lembranças são mais frágeis do que gostaríamos de admitir e amar alguém com Alzheimer é passar a lembrar por duas pessoas.
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido no Annecy International Animation Film Festival 2026 (Official Selection)

Tangles
Estados Unidos, Canadá, 2026, 102min.
Direção: Leah Nelson
Roteiro: Leah Nelson, Trev Renney
Elenco: Julia Louis-Dreyfus, Abbi Jacobson, Bryan Cranston
Produção: Evan Goldberg, Lauren Miller Rogen, Alan Powell
Edição: David Avery
Música: Dan Romer
Classificação: Não definida.












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