La Más Dulce - Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | A Mais Doce (La Más Dulce) [28º Festival do Rio]

Um tema extremamente importante abordado de maneira monótona e esquecível.

La Más Dulce, de Laïla Marrakchi, foi selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2026 e, em setembro, foi escolhido por unanimidade pelo Centro Cinematográfico Marroquino para representar o país na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional de 2027. A trama acompanha Hasna e Meriem, duas marroquinas que deixam o país pela primeira vez para trabalhar como safristas na colheita de morangos em Andaluzia. O que começa como uma promessa de melhores condições de vida rapidamente se transforma em uma experiência de exploração, assédio e condições de trabalho indignas. A partir da união entre as mulheres e da decisão de denunciar o sistema que as explora, o filme transforma uma história de migração em um retrato das desigualdades de gênero e de classe que atravessam a relação entre Marrocos e Europa.

Há uma escolha extremamente interessante em necessária em abordar mulheres trabalhadoras que são diariamente exploradas e movimentam grande parte da economia migratória. O filme-denúncia leva um problema de suma importância que muitas vezes é ignorado, para fora das fronteiras de seu país através da sétima arte. É inegável a importância da obra para a história de Marrocos. Em 2001, Marrocos e Espanha assinaram um acordo bilateral para organizar a migração de trabalhadores, incluindo a migração sazonal para a agricultura. O acordo passou a ser efetivamente implementado a partir de 2005, e, desde 2006, milhares de mulheres de áreas rurais do Marrocos passaram a ser recrutadas para trabalhar temporariamente na colheita de frutas vermelhas em Huelva. Apesar desse acordo só ter sido efetivado em 2005, a Organização Internacional do Trabalho já documentava, bem antes doprograma de recrutamento feminino, condições de trabalho precárias e situações problemáticas envolvendo violência, abuso e discriminação com a classe trabalhadora marroquina no setor agrícola europeu. n

La Más Dulce – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

O problema de La Más Dulce não está na importância do tema que escolhe abordar, mas na maneira como essa denúncia é construída. A situação vivida pelas trabalhadoras marroquinas é grave e merece ser discutida, mas o filme muitas vezes parece mais preocupado em deixar clara a sua mensagem do que em fazer o espectador sentir o peso daquilo que está acontecendo. As situações de tensão não são construídas de forma gradativa para que ocasione em um impacto no espectador.

Isso também está relacionado ao desenvolvimento dos personagens. O filme apresenta mulheres colocadas em uma situação de extrema vulnerabilidade, mas não consegue desenvolver suas personalidades para além das circunstâncias que enfrentam. É difícil criar uma relação mais profunda com personagens que conhecemos tão pouco. Existe, naturalmente, uma indignação diante da situação em que elas estão inseridas, mas ela vem muito mais da consciência sobre a injustiça daquela realidade do que de uma conexão emocional construída pelo próprio filme. O desenvolvimento das personagens é praticamente nulo.

La Más Dulce – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Por esse motivo, o longa acaba tendo uma distância curiosa entre aquilo que conta e aquilo que consegue provocar. O assunto é forte, mas a experiência de assistir ao filme nem sempre acompanha essa força. O roteiro poderia explorar com mais profundidade essas mulheres, suas relações, seus medos e as consequências daquela experiência, fazendo com que a denúncia surgisse naturalmente daquilo que elas vivem. Em vez disso, a abordagem acaba sendo um pouco monótona e, principalmente, pouco memorável.

 

★★⯪☆☆

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

 

A Mais Doce | La Más Dulce
França, Espanha, Marrocos, 2026, 101min.
Direção: Laïla Marrakchi
Roteiro: Laïla Marrakchi, Delphine Agut
Elenco: Nisrin Erradi, Hajar Graigaa, Hind Braik
Produção: Saïd Hamich, Elisa Heene, Laïla Marrakchi
Direção de Fotografia: Tristan Galand
Música: Aïda Merghoub, Malo Thouément, Guillaume De Bergeyck
Classificação: 14 anos

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