A maior lição sobre amar é esperar pelo inesperado.
Uma aula de literatura sobre o amor. O que é amar, pergunta o professor a uma classe de jovens em suas idades do descobrimento. O que é o amor, em sua mais pura essência? Muitas são as respostas e conjecturas, dentre elas a de que o amor é – em essência – espera. A afirmação vem de Roland Barthes, filósofo e crítico literário francês, e é apresentada como uma verdade repleta de vertentes. Ao final da aula, uma pergunta pessoal de uma aluna. O sinal toca, antes que o professor lhe dê a resposta. Após, o anúncio: aquela era a sua última aula antes da aposentadoria.
É assim que “Love Lessons” (Demain je tombe amoureux) se inicia. Com um ritmo e uma forma de mostrar as relações que beira ao documental, em que nos imergimos em uma sala de aula tão naturalmente identificável, até o momento crucial do sinal indicativo do fim da mesma, e início da jornada de Émile (Fabrice Luchini), o professor que acaba de se aposentar.
A sua jornada pessoal tem, aqui, início com o fim de sua trajetória profissional, e nada poderia ser mais dramático. É neste momento que Émile descobre que sua esposa o deixou. Fragilizado e chocado com as possíveis motivações que a levaram a tomar tal decisão, embarcamos em uma viagem através dos sentimentos e das novas vivências do protagonista, em busca de um sentido para a sua vida.
Há neste filme uma verdade muito grande acerca da vida. A maneira como Martin Provost dirige esta história traz uma veracidade e uma verossimilhança com os sentimentos e relações do mundo real que chega a ser doloroso, quando se faz a conexão. Mas é aqui que nos pegamos imersos e cheios de identificação com os personagens desta história.

Se o filme se inicia com uma aula sobre o amor romântico, Eros, passando para uma reflexão sobre o amor para além da atração física, o filme nos presenteia com uma complexa analogia sobre o amor em suas diversas formas.
Ao acompanharmos os desdobramentos da vida de Émile após o abandono da esposa, vemos as relações que circundam o personagem tomarem forma: a amor fraternal, o amor materno, os amores românticos, amigos e idealizados. Cada um com uma força própria e uma maneira natural de abordagem que amarra a narrativa de forma leve, engraçada e extremamente íntima.
Algumas das características principais do cinema de Provost se encontram neste filme: A utilização de cenários reais traz imersão e realismo aos dramas vividos pelos personagens, conectando-os aos espaços e criando laços dos mesmos com os locais em que vivem. O cenário não é apenas plano de fundo, mas criador de memórias e situações dramáticas. Neste filme, a pequena cidade costeira de Dieppe, na França, é motivo para reencontros e despedidas, passagem e descobertas. É local de permanência e abandono.
Neste filme, há uma abordagem intimista sobre as relações dos personagens, e ainda que o protagonista seja masculino, há uma ótica sobre o mesmo em uma posição majoritariamente feminina, ou pelo menos em uma posição classicamente atribuída ao universo feminino, qual seja: a da figura abandonada, sofredora e idealista, que possui a visão de mundo através de um ideal romantizado e idealizado como tal. Em contraponto, Provost fortalece as mulheres retratadas na história, dando a elas voz, tomadas de decisão e as rédeas do próprio destino.
Ainda, temos a colocação destes personagens em situações universais, identificáveis em pequena ou grande medida em qualquer lugar do mundo, a partir de sonhos idealistas ou realidades cruas. O amor, aqui retratado em suas múltiplas facetas, é universalmente sentido, em sua dor e beleza. Por fim, o uso ao mesmo tempo metafórico e realista de que a literatura nos salva das mazelas da vida, ao nos dar novos caminhos e possibilidades escancara o quão frágeis somos e necessitamos das narrativas para nos abrirem a mente em momentos sombrios. Por vezes, é o que nos mantém de pé e seguindo em frente.
Um dos aspectos mais bonitos deste filme é trazer protagonistas em idades mais avançadas. Muito se fala do amor e dos descobrimentos acerca dele em idades jovens, onde a vida ainda nem mesmo se mostrou avassaladora em suas verdades. Neste filme, vemos o amor morrer, nascer e ser ressignificado pelos olhos de pessoas cuja vida foi vivida de forma intensa e real, cujas frustrações, desejos e realizações se deram ao longo de anos, mas que ainda possuem uma sede de viver ainda mais.
Talvez seja este o ponto que mais torne este filme tão emocionante: a capacidade de nos mostrar que a dádiva da vida é podermos vivê-la e querermos fazer da vida nosso maior presente, e que as maiores lições sobre o amor são aquelas que não chegamos a vivenciar. Ainda.
Crítica por Bianca Rolff.

Love Lessons| Demain, Je Tombe Amoureux
França, 2026, 114min.
Direção: Martin Provost
Roteiro: Martin Provost
Elenco: Fabrice Luchini, Emmanuelle Devos, Chiara Mastroianni
Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas
Direção de Fotografia: Guillaume Schiffman
Música: Olivier Goinard, Olivier Mauvezin












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