Filme de abrtura do 54º Festival de Cinema de Gramado traz um elenco de peso para uma produção tecnicamente revolucionária, porém sem alma.
A abertura do 54º Festival de Cinema de Gramado trouxe à tela um dos projetos mais ambiciosos do cinema brasileiro recente. “Antártida” chega com o título de primeiro longa-metragem nacional integralmente produzido em LED Volume, Unreal Engine e ICVFX — a mesma tecnologia imersiva que redefine o visual de superproduções globais de Hollywood. Infelizmente, a dedicação técnica esbarra em um roteiro que, ironicamente, padece da mesma frieza que seu cenário promete retratar.
Na trama, cientistas e militares se preparam para enfrentar o inverno rigoroso em uma base brasileira de pesquisa na Antártida. Tudo muda após a primeira noite, quando Inês sofre uma violência e a situação torna todos os homens suspeitos. Sob clima de tensão e desconfiança, a subcomandante Elisabeth lidera uma investigação em busca do criminoso com o apoio das mulheres da base. O cenário claustrofóbico e o tema urgente poderiam render um excelente suspense psicológico, mas a excessiva expositividade dos diálogos e a forma como a atmosfera é construída faz com que a obra deixe a desejar.

Concebido originalmente como série, o projeto foi condensado em um longa-metragem, e as marcas desse enxugamento são dolorosamente evidentes. A metragem não oferece oxigênio para que os conflitos respirem ou para que as atitudes dos suspeitos sejam minimamente exploradas. O espectador não tem tempo de criar vínculos ou dúvidas legítimas, os homens são reduzidos a suspeitos por condutas frágeis e elementares, enquanto as mulheres orbitam em torno de um papel de vítima passiva, o que empobrece o debate que o filme propositalmente evoca.
Os diálogos, excessivamente pedagógicos, tratam o tema de uma forma que opta em distorcer a complexidade humana em favor do maniqueísmo. Caricaturas e histerias tomam o lugar de uma densidade que poderia elevar o patamar da obra. É louvável que o cinema brasileiro queira dar visibilidade à violência de gênero, mas a forma como o roteiro a conduz soa banalizada, utilizando o trauma como um simples e raso gatilho narrativo.

Nesse cenário, Andrea Beltrão surge como a única âncora emocional do longa. Sua atuação tenta, a cada cena, resgatar a gravidade que o texto lhe nega. No entanto, o próprio roteiro a trai ao revelar que sua obstinação pela justiça parece derivar exclusivamente de um trauma pessoal, um clichê que reduz sua autoridade e sua luta a uma motivação egocêntrica, desvalorizando a potência de sua própria personagem. Bruno Safadi, na direção, demonstra competência e um excelente manejo de ritmo, deixando a certeza de que, com a duração de uma série, tanto ele quanto o elenco teriam mais espaço para brilhar.
É justo dizer que, no campo visual, “Antártida” é um marco. Os painéis de LED e o tracking de câmera criam uma imersão surpreendente no deserto gelado e a ilusão é tão convincente que nos faz esquecer que se trata de um estúdio. O filme prova que o Brasil já domina as ferramentas de ponta do entretenimento mundial.

Em relação aos efeitos especiais, mesmo sendo arriscado utilizar uma tecnologia tão inovadora, a produção se saiu muito bemao retratar o deserto gelado da atártida por meio de painéis de LED praticamente imperceptiveis. A imersão é surpreendente, principalmente se tratando da primeira produção filmada integralmente com esse recurso.
Contudo, a dedicação técnica expõe ainda mais a contradição de “Antártida”, um longa que se mostra revolucionário na forma, mas conservador e apressado no conteúdo. Ao sacrificar o desenvolvimento orgânico dos personagens em nome de uma duração enxuta, a produção desperdiça uma oportunidade rara de aliar espetáculo visual a um debate profundo sobre justiça e gênero.
Em suma, a obra apresenta um potencial congelado. O filme nos envolve com a paisagem, mas nos mantém distantes da alma humana que habita aquele gelo. E, num drama que se propõe a ser tão visceral, esse distanciamento é, sem dúvida, seu maior deslize.
Crítica por Pedro Gomes.












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