Pedro Gomes, crítico de cinema e João Dumans, diretor do filme, conversam no [15° Olhar de Cinema]
Exibido no Olhar de Cinema 2026, A Noite e os Dias de Miguel Burnier acompanha o cotidiano de moradores do distrito mineiro que enfrenta as consequências da expansão mineradora. Conversamos com o diretor sobre o processo de realização do documentário, o esvaziamento das comunidades e as marcas deixadas pela mineração em Minas Gerais.
Pedro Gomes: A primeira coisa que eu queria te perguntar é se você acha que Miguel Burnier é uma exceção ou, infelizmente, um retrato que acontece em várias cidades de Minas Gerais e do Brasil.
João Dumans: Não. Certamente não é uma exceção. Miguel Burnier é um exemplo muito evidente. A gente vive esses dramas em diferentes lugares de Minas Gerais, de Ouro Preto e do Brasil também.
Hoje em dia são muitos os distritos de Ouro Preto e de Minas que estão ameaçados pela atividade da mineração. Ameaçados de formas diferentes, seja por desastres ambientais e humanos, crimes como os de Brumadinho e Bento Rodrigues, seja por catástrofes mais silenciosas, que vão afetando a vida das pessoas de forma quase invisível para nós que estamos fora desses contextos. O filme foca especificamente nessas catástrofes que se desenrolam lentamente, que talvez não produzam imagens tão chocantes, mas cujos danos são igualmente problemáticos e afetam a vida das pessoas de uma maneira muito radical e dramática.
Pedro Gomes: Você acha que o Brasil escuta essas comunidades só quando acontece alguma tragédia?
João Dumans: Eu tenho a impressão de que não escuta nem quando as tragédias acontecem.
Escutei uma notícia semana passada de que ainda em relação ao crime da Samarco, em Bento Rodrigues, inúmeras pessoas que foram deslocadas de suas casas e foram para Mariana, que recebiam alguma indenização, estão sendo obrigadas hoje a sair desses lugares. Muitas vezes param de receber a indenização. Na verdade, elas são ouvidas no momento em que a catástrofe acontece, quando o problema aparece. Depois isso volta aos lentos processos jurídicos que não fazem justiça ao tamanho do dano causado à vida dessas pessoas. Mas acho que o maior problema é que as populações não são ouvidas nos processos de licenciamento, para que possam decidir até onde entendem que é possível conviver com a mineração no seu território e que tipo de compensação elas esperam.
Essas compensações são definidas pelas empresas junto com o poder público de uma forma absolutamente abstrata e muito pouco clara. As comunidades não participam desse processo. Não é necessariamente ir contra a atividade mineradora. Isso poderia ser discutido. O fato é que as comunidades que estão no entorno dessas áreas não estão sendo escutadas e não estão recebendo as compensações devidas.
Pedro Gomes: Depois de passar tanto tempo com aquelas pessoas, você saiu do filme mais otimista ou mais pessimista em relação ao futuro delas?
João Dumans: Eu não poderia arriscar nenhuma previsão a respeito do futuro delas. Acho que elas têm achado soluções. Algumas preferem sair, outras preferem ficar. Mas em relação ao distrito eu posso dizer que sempre volto lá. Estive recentemente e a situação piorou muito desde quando filmei, entre 2019 e 2022.
A situação se agravou de uma maneira mais radical. Por isso eu dizia ontem que a realidade já ultrapassou o filme. O cenário que eu peguei ainda era melhor do que está hoje. Pelo menos cinco das famílias que eu filmei ao longo desse processo já não estão mais em Burnier. Nesse sentido, o distrito está ainda mais desamparado, mais desprotegido e mais exposto. O avanço da Gerdau sobre o território continua de forma cada vez mais acelerada.
Pedro Gomes: Uma coisa que eu até falei na coletiva e vou repetir aqui para ficar registrado: como foi para você tomar a decisão de registrar também os momentos de felicidade? É uma escolha que faz com que o filme se torne mais sobre a vida do que sobre a falta dela.
João Dumans: Isso para mim era essencial.
Quando resolvo filmar esses personagens — Dadá, Rita, Zezé, Jussara — eu filmo por uma admiração que vou desenvolvendo à medida que os conheço. O próprio fato de filmá-los está ligado a essa admiração. Não só pela força e pela resiliência, mas também pela inteligência. Pelo modo como essas pessoas acharam soluções, formas de viver, e como se amparam e se cuidam umas às outras. É uma admiração por essa coisa muito humana e muito generosa que atravessa as relações, que também têm seus momentos de tensão, de briga e de desgaste.
O filme se move a partir dessa admiração por essas pessoas. Isso está na essência do projeto. Tentar mostrá-las na sua beleza mesmo. Uma beleza sobre a qual foi imposto um prejuízo, uma vida difícil.
Pedro Gomes: Você acha que existe uma tristeza específica ou um sentimento específico das cidades mineradoras de Minas que só quem nasceu e viveu aqui consegue perceber?
João Dumans: Eu não acho que ela seja específica.
Existe um pouco essa conversa de que haveria uma melancolia em Minas, por causa das paisagens, por causa da própria presença da mineração. Acho que isso está um pouco em Drummond. Essa mistura de saudosismo pela terra e pela infância com uma melancolia relacionada aos processos de desenvolvimento, de destruição da terra e transformação das paisagens. Mas sinceramente acho que isso acontece no Brasil inteiro.
O Brasil é marcado por essa percepção de uma terra fértil, rica, e ao mesmo tempo atravessada, desde sua fundação, por uma exploração brutal das pessoas e do território. Talvez isso produza um sentimento específico que estamos chamando de melancolia. Mas não sei se é algo particular de Minas.
Pedro Gomes: Como mineiro, uma coisa que eu vejo até em cidades grandes como Belo Horizonte é que seu filme registra algo que muitos de nós já sentimos, mas raramente conseguimos colocar em palavras: a ideia de que algumas cidades parecem estar desaparecendo aos poucos. Essa sensação acompanhou você durante a realização?
João Dumans: Sim. Quando eu cheguei lá, os próprios moradores repercutiam isso e se perguntavam sobre isso. Existem diferentes posições entre as pessoas que querem ficar e acreditam que o lugar pode voltar a ser um polo turístico e outras que já não têm mais forças para lutar ou que acham que não é mais possível levar uma vida positiva ali.
As próprias pessoas testemunham o esvaziamento dos amigos e dos familiares. Isso não é uma questão de sensação ou opinião. É uma evidência. O distrito está se esvaziando. E as ações tanto do poder público quanto da empresa para reverter esse esvaziamento são muito frágeis. A sensação que dá é que não está sendo feito o suficiente pelos moradores de Burnier.
Pedro Gomes: Uma coisa que acabou sendo evidenciada também no filme, e não sei se era intencional, é que ele soa como uma denúncia ao alcoolismo. É muito fácil apontar o dedo sem entender que, naquela situação, aquilo era uma das únicas válvulas de escape possíveis. Como você enxerga isso?
João Dumans: Eu acho que a questão do álcool e do alcoolismo aparece justamente porque muitas vezes trabalhamos isso numa chave moral, como julgamento. Como se fosse uma questão da personalidade das pessoas. O esforço do filme é colocar isso num contexto político. Mostrar que existe um processo que leva as pessoas a recorrerem ao álcool.
Claro que cada pessoa é afetada de maneira diferente, mas existe essa ambiguidade. O álcool é uma válvula de escape, mas também é algo que corrói a vida, os laços, as relações e as possibilidades de imaginar um futuro. Então o filme tenta entender como o nosso mundo produz essas situações e nos encaminha para elas. Muito mais do que fazer um julgamento moral. Os próprios personagens formulam isso muito claramente.
Era importante pensar a mineração também do ponto de vista da relação com o alcoolismo.
Porque a questão do vício afeta todos nós, não apenas essas comunidades.
Pedro Gomes: Como você falou, seu filme acabou indo muito além de um documentário informativo. Ele fala sobre vida, esperança, falta de esperança. Se fosse para resumir o filme em uma palavra ou sentimento, qual seria?
João Dumans: Eu acho que seria amizade. Porque a amizade, e tudo o que ela implica — cuidado, preocupação e comprometimento com a vida do outro — é para mim o sinal de que o distrito não acabou. Que a vida ainda está presente ali. Eu acho que o filme é sobre essa vida que permanece num lugar onde a vida não é desejada.
Então me parece que é um filme sobre amizade.












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