Janaína Marques, Verônica Cavalcanti e Luciana Souza - Foto por Pedro Gomes

Entrevista | Equipe de Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha fala sobre imaginação, afeto e ancestralidade [15° Olhar de Cinema]

Longa-metragem de Janaína Marques foi o último da Mostra Competitiva Brasileira a ser exibido, deixando os fãs completamente emocionados.

Exibido no Olhar de Cinema 2026, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha acompanha Rosa em uma jornada entre memória, imaginação e reconstrução afetiva. Após a sessão, o crítico de cinema Pedro Gomes conversou com a diretora Janaína Marques e com as atrizes Verônica Cavalcanti e Luciana Souza sobre os temas centrais do filme, o poder da imaginação e as relações femininas que atravessam a obra.


Pedro Gomes: Se alguém perguntasse para vocês sobre o que é o filme, qual seria a resposta?

Janaína Marques:

Olha, se alguém me perguntasse sobre o que é o filme, eu diria que ele é sobre afeto. E sobre como, nos momentos mais cruciais da vida, a melhor saída é para dentro. É utilizar a imaginação como arma de sobrevivência, de cura e de reinvenção da própria história.


Verônica Cavalcanti:

Para mim, o filme, quando usa a imaginação como ferramenta para um processo de cura, para um processo de sair do lugar onde você está e encontrar uma plenitude de viver, acaba se tornando uma declaração de amor à arte. Quando penso na imaginação como uma coisa que move a gente, eu penso que ela move tudo na vida. É o que move a realizar um espetáculo, a escrever um roteiro, a escrever a letra de uma música, um poema.

Se não tiver imaginação, nada parte do lugar. Primeiro a gente imagina, depois concretiza. Então eu acho que o filme toca muito nisso. Parece até sutilmente, mas no final fica muito forte para mim essa mensagem. É uma declaração de amor à arte, ao fazer artístico. Quando a gente transforma uma coisa péssima, uma dificuldade, em arte, a gente elabora aquilo e respira. É isso.


Luciana Souza:

Eu acho que o filme fala de muitas coisas. Especialmente porque o cinema faz isso: permite que cada um escolha também o seu caminho dentro da mensagem que vai receber, onde aquilo toca cada pessoa. Mas para mim é muito marcante a importância do olhar para as relações. Ainda que a gente esteja falando de imaginação e memória, existe um olhar muito forte para as relações afetivas. Um mergulho dentro dessas relações.

E isso que Jana traz como um processo de cura é algo que me marca profundamente no filme.


Pedro Gomes: Como vocês enxergam essa ideia de sonhar com um passado que nunca existiu? Ou amar uma pessoa não pelo que ela é, mas pela idealização dela? É o caso da Rosa, que ama uma versão da mãe que existe muito mais dentro dela do que na realidade.

Janaína Marques:

Eu acho que Rosa possui dentro de si um repertório que mistura o que ela viveu com a mãe até os oito anos de idade, enquanto criança. Mistura julgamentos que recebeu depois que a mãe saiu de casa. Mistura medo. Mistura confusão por ser uma filha sem a figura materna. Mistura desejos e vontades reprimidas. Toda essa junção de coisas colapsa mentalmente e disso nasce um processo de imaginação.

Mas não é uma imaginação que descarta o que é verdade. Ela utiliza a verdade a favor de uma nova construção para caminhar na vida. Eu sinto que Rosa possui não apenas a figura materna dentro dela. Ela carrega uma ancestralidade de muitas outras mulheres. E ela reconstrói essas mulheres dentro de si. Mas nunca descartando o que é verdade ou não. Ela simplesmente pega para si aquilo de que precisa para se reconstruir, se reestruturar como mulher e, a partir disso, atingir uma cura e se firmar na própria existência feminina no mundo.

De alguma maneira, o filme fala muito sobre sororidade. Sobre quantas mulheres carregamos dentro da gente. Independentemente das funções que elas ocupam — mães, filhas, avós. São mulheres que carregamos dentro de nós. E sempre que precisamos, podemos utilizá-las como força, conhecimento, potência e empoderamento. Nesse sentido, a sororidade caminha pelo filme de forma muito marcante. Assim como a ancestralidade e o feminino.

Rosa carrega muitas mulheres dentro dela. E são elas que empurram Rosa para a existência e para a vida.


Verônica Cavalcanti:

Eu acho que a única maneira que ela encontra para amenizar ou resolver essas questões do abandono, esse trauma que a perturba tanto, é através da imaginação. No plano real, essa possibilidade já não existe mais. O que foi, foi. Então ela encontra uma saída possível, que é esse plano da imaginação. E ela vai com tudo. Ela passa a ser outra versão da Rosa. A versão destemida. A versão que vai fazer tudo aquilo que não fez. Que vai experimentar coisas que não experimentou na realidade com a mãe. Ela entra nessa estrada destemida. E essa imaginação, já que é uma criação dela própria, serve para lavar tudo. Para limpar. Para colocá-la em outro nível de potência de vida. Serve para que ela consiga superar tudo isso.


Luciana Souza:

Eu fico pensando que a gente lê e ouve muito que vive presente, passado e futuro ao mesmo tempo. A gente não tem muita dimensão disso, mas às vezes se encontra em situações em que pensa: “parece que eu já vivi isso”. A própria terapia trabalha muito com esse movimento de voltar ao passado para resgatar coisas e conseguir elaborá-las. Eu acho que a gente vive um momento em que precisa muito desse resgate.

Ao mesmo tempo, eu me vejo em situações que eram desejos do passado e hoje fazem parte da minha realidade. Estar fazendo cinema. Estar sendo entrevistada. Estar aqui no Sul. Estar fazendo televisão. São lugares que pareciam distantes da minha realidade. Então existe também esse movimento de voltar para aquela criança que sonhava essas coisas. Isso me faz pensar muito na minha trajetória como artista, como mulher, como professora de escola pública durante trinta e cinco anos. Eu não sou mãe, mas fui mãe de muitas crianças de outras formas. Então existe uma ancestralidade que nos impulsiona. É como se voltássemos para buscar força nessas mulheres e, ao mesmo tempo, seguir para o futuro preparando terreno para as que estão chegando.

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