Com uma proposta inovadora, Telúrica se perde na própria premissa.
Telúrica, a Íntima Utopia é um documentário que demonstra interesse genuíno em discutir pertencimento, memória e formas alternativas de existência por meio de uma companhia teatral formada por pessoas em sofrimento psíquico. Porém, o resultado final se mostra excessivamente disperso, incapaz de transformar suas ideias em uma experiência envolvente.
O principal problema está na ausência de uma estrutura que permita ao público se conectar com o que vê. As conversas, reflexões e ensaios se sucedem como peças soltas de um quebra-cabeça que nunca revela sua imagem final. Em muitos momentos, o filme parece pressupor que a simples acumulação de falas poéticas e fragmentos de pensamento será suficiente para produzir significado. No entanto, sem um fio condutor mais claro, grande parte dessas ideias acaba se dissolvendo antes mesmo de encontrar algum peso emocional.

Essa falta de direção faz com que a obra oscile constantemente entre documentário, registro de processo criativo e ensaio audiovisual, sem jamais se comprometer integralmente com nenhuma dessas linguagens. O resultado é uma sensação persistente de indefinição. O espectador compreende a intenção do projeto, mas encontra dificuldade para imergir no percurso proposto pela narrativa.
As escolhas visuais também contribuem para esse distanciamento. A câmera frequentemente alterna entre focos e desfoques de maneira aparentemente aleatória, criando uma estética que transmite mais indecisão do que propósito. Em vez de direcionar o olhar ou enriquecer os temas explorados pela obra, a fotografia acaba reforçando a sensação de desorientação. São imagens que raramente encontram força suficiente para se sustentar.

Ainda assim, existe um aspecto do filme que merece reconhecimento. Ao acompanhar uma companhia teatral formada por pessoas em sofrimento psíquico, Telúrica, a Íntima Utopia constrói um retrato raro da arte como espaço de pertencimento e expressão. Em vez de reduzir seus participantes aos seus diagnósticos, a obra os apresenta como artistas, criadores e indivíduos capazes de transformar suas experiências em matéria-prima para a criação. Existe algo genuinamente bonito na forma como o filme registra esse processo, lembrando que essas pessoas não são definidas por suas limitações, mas também por sua criatividade, seus desejos e sua capacidade de produzir arte.
Também é interessante observar como o documentário encontra valor no próprio ato de criar. Os ensaios, as dúvidas, os esquecimentos, as mudanças de ideia e os momentos de insegurança revelam uma dimensão da arte que normalmente permanece invisível ao público. Há uma honestidade nesse olhar para o processo, para uma criação que está constantemente se transformando e nunca parece completamente pronta. Mesmo quando o filme se perde em suas próprias abstrações, permanece a sensação de que existe algo genuíno na maneira como registra a construção coletiva daquela peça e a comunidade que se forma ao seu redor.
Crítica por Pedro Gomes.
Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Brasileira)
Telúrica, A Íntima Utopia
Brasil, 2026, 104min.
Direção: Mariana Lacerda
Roteiro: Mariana Lacerda, Paula Mercedes
Elenco: Elisa Band, Jayme Menezes, Peter Pál Pelbart
Produção: Felipe Guimarães
Direção de Fotografia: Marcelo Lacerda
Música: O Grivo
Classificação: 14 Anos
Distribuição: Descoloniza Filmes












Leave a Reply