Numa das mais gratas surpresas do Olhar de Cinema, Olhe Para Mim é um road movie que honra o ato de sonhar.
Alguns filmes que contam histórias. Outros parecem funcionar como sonhos. O novo longa de Rafhael Barbosa é uma obra carregada de simbolismos, imagens e sensações que frequentemente importam mais do que qualquer explicação literal. É um daqueles filmes que não pedem para ser decifrados, mas sentidos. E justamente por isso se tornou uma das experiências mais marcantes no Olhar de Cinema deste ano.

A premissa parece simples: um jovem ainda vive assombrado pelo desaparecimento da mãe ocorrido durante a infância. No entanto, o filme rapidamente abandona qualquer caminho convencional e se transforma em algo muito mais próximo de uma fábula existencial. Quando Marcelo encontra Sandra e seu misterioso filho Ivan, a narrativa assume contornos de road movie, mas também de conto fantástico ou devaneio. A cada nova parada, a sensação é de que estamos atravessando não apenas paisagens físicas, mas também territórios emocionais e subconscientes.
O mais fascinante na direção de Rafhael Barbosa é a forma como ele utiliza a figura das aves ao longo da narrativa. Ivan parece existir em uma fronteira constante entre o humano e o animal, entre aquilo que pertence ao mundo concreto e aquilo que deseja escapar dele, como uma certa ansiedade para deixar a bestialidade e abraçar a humanidade. É como se o personagem estivesse em um constante estado de metamorfose.

Já Marcelo, procura não só uma pessoa desaparecida, mas uma parte de si mesmo que ficou perdida no passado. O vazio deixado pela ausência materna se transforma em combustível para sua imaginação, para seus sonhos e para sua necessidade de acreditar que existe algo além da realidade. É um filme sobre pessoas tentando preencher ausências. E talvez seja justamente por isso que sua dimensão fantástica funcione tão bem.
Visualmente, a obra é deslumbrante. A fotografia encontra beleza tanto nas paisagens quanto nos pequenos detalhes, criando imagens que permanecem na memória mesmo após o término da sessão. Entre esses elementos, uma cor parece surgir repetidamente: o vermelho. Ele aparece em roupas, objetos, esmaltes e pequenos fragmentos espalhados pela narrativa. Esse tom parece funcionar como a cor do desejo, não necessariamente um desejo romântico ou sexual, mas da vontade de viver, de partir, de encontrar respostas, de seguir um sonho até suas últimas consequências. É a cor da inquietação que move todos aqueles personagens.

Talvez o aspecto mais bonito de Olhe Para Mim seja justamente sua coragem de abraçar o mistério. Em uma época em que tantos filmes parecem obcecados em responder tudo, Rafhael Barbosa constrói uma obra que encontra beleza nas perguntas. Um filme sobre sonhos e ausências, sobre humanidade e liberdade. Um filme que parece falar também sobre o próprio ato de imaginar e criar. E que, por isso mesmo, se transforma em algo raro: uma fantasia brasileira profundamente autoral, ousada e emocionalmente verdadeira.
Crítica por Pedro Gomes.
Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Brasileira)

Olhe Para Mim
Brasil, 2026, 89min.
Direção: Rafhael Barbosa
Roteiro: Rafhael Barbosa, Jasmelino de Paiva, Nivaldo Vasconcelos
Elenco: Rejane Faria, Ulisses Arthur, Luciano Pedro Jr.
Produção: Felipe Guimarães
Direção de Fotografia: Roberto Iuri
Música: Luiz Martins
Classificação: Não Definida
Distribuição: Olhar Filmes












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