Crítica – Robô Selvagem (The Wild Robot)

DreamWorks encanta e surpreende em um espetáculo de texturas para falar sobre maternidade e pertencimento.

Dois anos atrás, o mundo parou para assistir “Gato de Botas: O Último Desejo”. O gênero de animação estava saturado e o longa-metragem da DreamWorks surpreendeu à todos pela sua junção de características poderosas: roteiro original, personagens completamente memoráveis, trilha sonora impecável e principalmente a inovação tecnológica foram os aspectos que conquistaram tanto o público quanto a crítica. Essa inovação se deve ao fato de uma técnica que mistura a animação 3D tradicional com efeitos visuais que imitam a estética de animação 2D, especialmente no estilo de “pintura” digital, algo parecido com o que vimos em “Homem Aranha no Aranhaverso” (2018).

Agora, o estúdio ressurge com a nova obra de Chris Sanders (“Lilo & Stitch”) que utiliza dessa mesma tecnologia para contar a história de uma robô – a unidade ROZZUM 7134, “Roz” – que naufraga em uma ilha desabitada e precisa aprender a se adaptar ao ambiente hostil, construindo pouco a pouco relacionamentos com os animais nativos, e até adotando um filhotinho de ganso órfão.

The Wild Robot – Universal Pictures (2024)

Em uma mistura de “Wall-E” com “Gigante de Ferro”, “Robô Selvagem” resgata a essência dos anos 90 em uma fábula emocionante e também se destaca visualmente com o uso inovador de texturas que variam entre diferentes estilos artísticos. Em alguns momentos, as cenas parecem pintadas à mão, com técnicas que imitam aquarela, pinceladas e até traços de caneta. Todos os elementos naturais, como água, fogo e neve, por exemplo, têm sua beleza realçada com esse novo estilo de desenhar e esse cuidado especial na renderização, criando uma estética única. Um exemplo notável disso é uma cena em que borboletas preenchem a tela, com as cores e formas das asas se misturando em um espetáculo visual que parece uma obra de arte em movimento. Essa técnica cria uma fusão de realismo e fantasia, onde os detalhes do mundo natural são exaltados de maneira poética, conectando a temática da natureza com a tecnologia de forma harmoniosa.

A trilha sonora de Kris Bowers é um dos maiores acertos do filme, contribuindo de forma poderosa para a construção emocional da narrativa. Bowers, conhecido por seu trabalho sensível e cativante em filmes como “Green Book” e séries como “Bridgerton”, traz ao longa uma música que é ao mesmo tempo delicada e grandiosa, acompanhando perfeitamente a jornada de Roz na ilha e proporcionando uma camada extra de profundidade e emoção à história.

The Wild Robot – Universal Pictures (2024)

A necessidade de pertencimento é um tema central que afeta tanto Roz, a robô protagonista, quanto os animais da ilha, principalmente Astuto e Bico Vivo. Roz, uma máquina criada para um mundo tecnológico, se encontra perdida e sozinha em um ambiente natural e selvagem. No início ela sequer consegue se comunicar com os animais, mas aos poucos ela vai sendo inserida nesse ambiente e essa jornada de adaptação e convivência simboliza a busca por esse pertencimento, algo que não se restringe a seres humanos. A necessidade de se conectar com outros e se sentir parte de algo é universal.

“Robô Selvagem” traz também uma poderosa metáfora sobre a experiência da maternidade e paternidade. Roz cria o pequeno ganso órfão com o objetivo de ensiná-lo a voar até o inverno, para que ele possa realizar sua migração, essencial para sua sobrevivência. Quando finalmente chega o momento, a robô é tomada por um sentimento de melancolia ao ver seu “filho” partir. Esse processo reflete uma dor frequente em pais e mães ao presenciar a independência dos filhos, uma realidade não muito comentada no cinema. Muitos pais se encontram perdidos em uma mistura de orgulho e dor ao ver seus filhos crescerem e se tornarem independentes. Embora seja motivo de felicidade ver um filho alcançar a autonomia, a sensação de perda e saudade é inevitável. Apesar disso, sabemos que essa separação é fundamental para o ciclo da vida. Pais e mães criam os filhos com o objetivo de prepará-los para o mundo, e, por mais doloroso que seja vê-los partir, isso é uma parte necessária da criação.

The Wild Robot – Universal Pictures (2024)

A nova obra é uma forte concorrente à levar o próximo Oscar de Melhor Animação e é altamente recomendado que ela seja assistida nos cinemas, para se aproveitar ao máximo a experiência que essa dança entre texturas é capaz de proporcionar ao público. As lágrimas são garantidas e é emocionante apreciar o trabalho do diretor e roteirista, que teve homenageia um dos atos mais belos (se não o mais belo) capaz de ser exercido por alguém: criar um filho. O filme estreia dia 10 de outubro nos cinemas.

 

Crítica por Pedro Gomes.

 

Robô Selvagem | The Wild Robot
Estados Unidos, 2024, 102 min.
Direção: Chris Sanders
Roteiro: Chris Sanders
Elenco: Lupita Nyong’o, Pedro Pascal, Kit Connor
Produção: Jeff Hermann, Heather Lanza
Direção de Fotografia: Chris Stover
Música: Kris Bowers
Classificação: Livre
Distribuição: Universal Pictures

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