Iris Kaltenbäck entrega em seu primeiro longa metragem uma história impactante com uma protagonista assombrada pela falta de controle emocional.
“Rapto” conta a história de Lydia, uma parteira dedicada que está enfrentando o fim de um relacionamento. Ao mesmo tempo, sua melhor amiga revela que está grávida e pede que Lydia a acompanhe durante a gestação. Lydia se envolve com Milos, um caso de uma noite, e, enquanto carrega o bebê de sua amiga nos braços, embarca em uma jornada traiçoeira que pode lhe custar tudo o que ainda lhe resta.
A mente da personagem principal é completamente misteriosa, e acompanhar suas escolhas perigosas deixa o espectador com um nó na garganta, apenas esperando uma consequência trágica. Aos poucos, Lydia abandona sua postura cuidadosa e delicada, revelando-se uma mulher inconsequente, egoísta e manipuladora, não por crueldade, mas por uma solidão com a qual ela não consegue lidar.

Colocando seus interesses pessoais à frente da gravidez de sua melhor amiga, o desenvolvimento da protagonista é evidente e muito bem construído. A confusão mental que ela vive não é explicitamente mostrada na trama, o que pode servir como um excelente objeto de estudo para psicanálise e psiquiatria. Iris Kaltenbäck entrega um longa-metragem visualmente belo e significativo, onde a duração é bem aproveitada e a qualidade da direção é mantida com maestria do início ao fim, revelando um futuro promissor para a jovem diretora.
A atuação de Hafsia Herzi é marcante. Ela oferece uma performance profundamente comovente e autêntica, com uma sutileza e intensidade que capturam de forma eficaz a dor e a solidão de uma mulher em constante conflito interno.

A história pode ser um pouco previsível, mas a forma como é contada prende o espectador. A escolha de ter essa trama narrada por um personagem cuja importância cresce gradativamente é sensacional. Milos, embora uma vítima, também sofre as consequências das ações de Lydia. Enquanto somos imersos pela excelente estrutura narrativa do filme, “Rapto” explora temas complexos como maternidade, amizade e os limites da moralidade. Iris Kaltenbäck demonstra um domínio notável na criação de uma atmosfera que reflete a angústia e a tensão dos personagens, transmitindo esses sentimentos ao público e contribuindo para a fluidez da obra.

As ações de Lydia são bastante condenáveis, mas no filme, são retratadas com tanta empatia que nos convidam a uma compreensão mais profunda de suas motivações. O filme explora intensamente os impulsos que levam as pessoas a ultrapassarem os limites da moralidade.
Com uma direção sensível, a obra oferece uma experiência cinematográfica reflexiva e digna de debate, destacando-se pela sua abordagem dos dilemas éticos e dos personagens moralmente questionáveis.
Crítica por Pedro Gomes.

Rapto | Le Ravissement
França, 2023, 97 min.
Direção: Iris Kaltenbäck
Roteiro: Iris Kaltenbäck
Elenco: Hafsia Herzi, Alexis Manenti, Nina Meurisse
Produção: Alice Bloch, Thierry de Clermont-Tonnerre
Direção de Fotografia: Marine Atlan
Música: Alexandre de La Baume
Classificação: 14 anos
Distribuição: Imovision












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