Crítica – Pobres Criaturas (Poor Things)

Um deslumbre visual insano e perturbador em uma grotesca fábula sobre emancipação.

Baseado no livro homônimo de Alasdair Gray e referenciando o clássico “Frankenstein”, a história se passa na Era Vitoriana e acompanha Bella Baxter, trazida de volta à vida após seu cérebro ser substituído pelo de um feto. O experimento é realizado pelo doutor Godwin Baxter, um cientista brilhante, mas nada ortodoxo.

Pobres Criaturas” emerge como um clássico moderno, destacando-se como uma das maiores obras cinematográficas de 2023. Temos uma fábula de horror retratada da forma mais perturbadora e bela possível. O filme é uma obra-prima visual e encanta pela absurda qualidade de seu design de produção, fotografia e figurino. Cada quadro é uma manifestação de arte, evidenciando a genialidade de Yorgos Lanthimos, que mais uma vez prova ser um dos maiores cineastas contemporâneos. O movimento artístico vitoriano ganha vida na tela de maneira grotesca e fascinante.

Poor Things – The Walt Disney Company/Searchlight Pictures (2023)

A beleza do filme é complementada pela trilha sonora, cuja competência é impressionante e ressoa nas salas de cinema. O roteiro audacioso desconstrói valores morais, desafiando os limites da ética científica. A intertextualidade, não apenas entre obras, mas também entre gêneros cinematográficos, é executada com maestria, resultando em uma mistura equilibrada de drama, horror e humor, que enriquece o teor artístico.

Esse humor vem através de uma sátira que constrange e incomoda, e que, como todos os detalhes desta obra, não está lá por acaso. Emma Stone entrega a melhor interpretação de sua carreira. A complexa evolução de sua personagem é retratada de forma extremamente realista, exigindo um nível insano de comprometimento e talento, algo que Emma executa com excelência. Mark Ruffalo e Willem Dafoe também surpreendem, com diálogos afiados e inteligentes que moldam o filme em uma gloriosa obra de arte. Yorgos faz um dos melhores usos do sexo como reflexão e desconstrução, em uma nudez agressiva que causa desconforto. A experiência cinematográfica é intensa, transformando inevitavelmente o espectador ao final da sessão. O texto audacioso convida à reflexão sobre os costumes morais da nossa época.

Poor Things – The Walt Disney Company/Searchlight Pictures (2023)

“Pobres Criaturas” não é apenas um filme sobre tabus e desconstrução, mas uma obra que provoca uma contemplação profunda sobre a formação da ética e da moral em nossa sociedade. É um convite à reflexão, uma experiência cinematográfica que transcende a tela e deixa uma marca duradoura na consciência do espectador. O roteiro explora como a sociedade molda o comportamento das mulheres, sendo um filme para ser visto, absorvido e apreciado em suas diversas interpretações.

Em “A Favorita”, outro filme de Yorgos Lanthimos, vimos uma amostra da capacidade de Emma Stone ao ser dirigida por ele. Agora, temos a revelação completa do potencial dessa talentosa atriz. Yorgos se aprofunda em cada camada da personagem Bella, permitindo que Emma entregue a melhor atuação de sua carreira. O filme é ousado e trabalha com o absurdo, o que é um de seus grandes destaques.

Poor Things – The Walt Disney Company/Searchlight Pictures (2023)

A direção de arte é deslumbrante e certamente um dos maiores pontos positivos do filme. Tanto as partes em preto e branco (uma clara referência a Frankenstein) quanto as cenas coloridas são tão bem executadas que é impossível ignorar qualquer detalhe, acessório, movimento ou objeto. Tudo foi meticulosamente orquestrado.

Toda a obra é extremamente detalhista e cuidadosa, o que eleva seu padrão e faz sentido, considerando que a trama gira em torno dos experimentos de um cientista. Sob a direção de Yorgos, o filme ganha vida. Um ponto interessante é o uso do fish-eye em várias cenas, uma técnica que, em alguns momentos, pode parecer um pouco estranha. Yorgos já a utilizou bastante em “A Favorita” e parece disposto a aperfeiçoá-la, tornando-a sua marca registrada.

Poor Things – The Walt Disney Company/Searchlight Pictures (2023)

A forma como o diretor coordena os atores é admirável, e é claro que quem carrega o peso principal da atuação é a brilhante Emma Stone. Este é um filme espetacular com um roteiro extremamente ousado para os dias de hoje, mas muito necessário, pois traz à tona uma mensagem poderosa sobre o empoderamento feminino e a autonomia sobre o corpo, a vida e as decisões da mulher. Yorgos é um dos poucos diretores que soube trabalhar uma visão feminista de maneira eficaz, mesmo sendo homem, e soube lidar muito bem com o ponto de vista feminino em sua obra.

O estúdio também merece aplausos, pois é perceptível que a liberdade criativa do diretor foi pouco ou nada limitada, resultando em um filme extremamente corajoso. “Pobres Criaturas” é, sem dúvida, um dos maiores sucessos de 2023 e ainda será muito discutido. Uma obra que já nasceu clássica, marcada por sua ousadia e estranheza, além de um roteiro incrivelmente inteligente que pode gerar várias discussões e interpretações poderosas.

 

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no Festival do Rio – Rio de Janeiro Int’l Film Festival (2023)

 

Pobres Criaturas | Poor Things
Irlanda/Reino Unido/Estados Unidos, 2023, 142 min.
Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Tony McNamara
Elenco: Emma Stone, Mark Ruffalo, Willem Dafoe
Produção: Yorgos Lanthimos, Ildikó Kemény, David Minkowski
Direção de Fotografia: Robbie Ryan
Música: Jerskin Fendrix
Classificação: 18 anos
Distribuição: The Walt Disney Company/Searchlight Pictures

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