Pequenas Criaturas - 27ª Festival do Rio (2025) | Imagem: Cortesia Festival

Crítica – Pequenas Criaturas [27ª Festival do Rio]

Um dos filmes mais marcantes e delicados do Festival do Rio

O filme, dirigido e roteirizado por Anne Pinheiro Guimarães, conta a história de uma família que se muda para Brasília em 1986. Helena mal se instalou com a família na capital futurista do Brasil quando o marido parte em viagem de negócios. Abandonada em uma cidade desconhecida, ela questiona suas escolhas se sentindo frustrada e perdida. O filho adolescente se rebela e descobre o primeiro amor; o filho de sete anos encontra magia em amizades improváveis e possibilidades invisíveis. Em uma democracia com menos de um ano de idade, todos vivem em um limbo, presos entre o que foi e o que poderia ser.

Pequenas Criaturas aborda uma confluência de temas: a transição pessoal de uma família, a transição política/social de um país e a transição interior das personagens, que precisam lutar psicologicamente para se adaptar no novo ambiente.

Pequenas Criaturas – 27ª Festival do Rio (2025) | Imagem: Cortesia Festival

Brasília, desde sua fundação, foi um projeto de utopia. Uma cidade pensada, desenhada e construída para representar o futuro do Brasil. Mas a cidade é o pano de fundo perfeito para falar sobre a infância, a afetividade, o desejo, a fragilidade emocional, justamente o que não pode ser controlado ou planejado. Brasília é um símbolo de perfeição geométrica, e os personagens, imperfeitos assim como a existência humana, são exatamente o contraste disso.

A linguagem do longa é profundamente contemplativa, construída entre silêncios e planos mais longos. A câmera se mantém distante, sem intervenção, retratando de forma natural as relações humanas.

Pequenas Criaturas – 27ª Festival do Rio (2025) | Imagem: Cortesia Festival

Em The Florida Project (Sean Baker, 2017), as crianças crescem à sombra da Disney, num motel decadente que tenta sobreviver ao lado do “lugar mais feliz da Terra”. A infância ali é pura invenção: elas criam mundos de fantasia em meio à miséria, e a câmera se recusa a julgar, escolhendo ver beleza onde o olhar adulto veria ruína. O mesmo gesto reaparece em Le Bambine, só que em vez da Flórida ensolarada, temos uma Itália de fim de século, cercada por repressão emocional. As meninas italianas transformam o vazio em refúgio, e a imaginação em ferramenta de sobrevivência.

Pequenas Criaturas, por sua vez, transpõe essa mesma sensibilidade para o Brasil. Aqui, o contraste não é entre pobreza e fantasia, mas entre ordem e emoção. Vemos o que Baker filma com cores quentes e caos e as irmãs Bertani com melancolia e ternura, traduzido para o nosso cinema. Anne Pinheiro Guimarães faz questão de mostrar que a infância não é apenas um estado de pureza, mas um ato de insubmissão diante da modernidade planejada.

Em suma, o longa mostra que sonhar é um gesto político. Que brincar é um modo de existir. Que as pequenas criaturas, sejam elas americanas, italianas ou brasileiras, carregam algo que o mundo moderno esqueceu, a coragem de imaginar quando tudo à volta parece já ter sido desenhado, e fazer dessa imaginação um ato de resistência.

 

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 27ª Festival do Rio – Rio de Janeiro Int’l Film Festival (2025)

 

Pequenas Criaturas
Brasil, 2025, 100min.
Direção: Anne Pinheiro Guimarães
Roteiro: Anne Pinheiro Guimarães
Elenco: Carolina Dieckmann, Michel Melamed, Caco Ciocler
Produção: Vânia Catani
Direção de Fotografia: Pablo Baião
Música: Anne Pinheiro Guimarães, Gabriel Amorim
Classificação: Não Definida
Distribuição: Filmes do Estação

 

Não perca nenhum conteúdo! Siga o Vi nos Filmes no Instagram, Youtube e Tiktok