“Elefantes na Névoa” transforma exclusão social em uma experiência cinematográfica hipnótica e arrebatadora
Em Elefantes na Névoa, thriller nepalês ambientado em uma pequena vila cercada por uma floresta habitada por elefantes selvagens, a história acompanha Pirati, matriarca de uma comunidade Kinnar (mulheres trans). Ela sonha em escapar para uma vida “normal” ao lado do homem que ama, mas, quando uma de suas filhas desaparece, precisa investigar o caso e escolher entre o amor e a responsabilidade para com sua comunidade.
O longa de estreia de Abinash Bikram Shah utiliza o desaparecimento da mulher como ponto de partida para discutir questões que ultrapassam os limites de uma investigação criminal. A dimensão política do filme está na maneira como retrata a exclusão social de pessoas que não se enquadram nas normas tradicionais de gênero e comportamento. As personagens são apresentadas em toda a sua complexidade, com desejos, conflitos e contradições. Ao mesmo tempo que encontram proteção entre aquelas que compartilham experiências semelhantes, continuam vulneráveis à violência e à indiferença de uma sociedade que não reconhece plenamente sua humanidade. O desaparecimento de Apsara, nesse sentido, também expõe as estruturas que determinam quais vidas recebem atenção e quais permanecem invisíveis, tal qual citado na crítica de O Degelo.

A natureza desempenha um papel fundamental nessa construção simbólica. Os elefantes que habitam a floresta são vistos pelos moradores como uma ameaça, despertando medo e motivando esforços para mantê-los afastados, estabelecendo um paralelo com a própria comunidade Kinnar, igualmente cercada por crenças e preconceitos que oscilam entre a reverência e a rejeição. A névoa, por sua vez, reforça a atmosfera de incerteza e sugere os limites daquilo que os personagens conseguem compreender. A floresta e os animais ampliam os conflitos humanos, questionando a necessidade de controlar aquilo que escapa às convenções sociais.
Ao se afastar da fórmula do suspense investigativo, o longa privilegia uma abordagem sensorial e contemplativa, na qual os rituais, os sons e as imagens assumem importância semelhante à dos acontecimentos. Essa escolha transforma o mistério em uma oportunidade de explorar questões relacionadas ao pertencimento, à maternidade e à tensão entre liberdade individual e responsabilidade coletiva.

A direção de Abinash Bikram Shah demonstra um domínio impressionante da atmosfera, transformando a floresta, a névoa e os silêncios em elementos fundamentais da narrativa, enquanto a direção de fotografia consegue explorar a densidade visual das paisagens e a relação entre luz e escuridão para construir imagens de beleza enigmática, que oscilam entre o realismo e o onírico. Mas é a trilha sonora que confere ao filme parte de sua força mais arrebatadora, envolvendo o espectador em uma experiência que ultrapassa aquilo que está efetivamente na tela. É um trabalho de som e imagem que não apenas acompanha a história, mas estabelece uma atmosfera hipnótica, fazendo com que o filme continue ecoando na memória mesmo depois de seu encerramento.

A importância de Elefantes na Névoa está tanto na representação de uma comunidade pouco explorada pelo cinema internacional quanto na tentativa de construir uma linguagem cinematográfica própria para abordar sua realidade. A relevância do filme para o cinema do Nepal está sobretudo na reflexão sobre quem tem o direito de pertencer a um lugar sem precisar justificar a própria existência. Ao transformar uma investigação em um retrato das contradições humanas e sociais, o filme propõe que o verdadeiro mistério não é apenas compreender o que aconteceu, mas reconhecer as condições que tornam determinadas vidas invisíveis.
★★★★☆
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido no 28º Festival do Rio

Elefantes na Névoa | तिनीहरू
Nepal, Alemanha, Brasil, 2026, 108min.
Direção: Abinash Bikram Shah
Roteiro: Abinash Bikram Shah, Sandeep Badal
Elenco: Pushpa Thing Lama, Deepika Yadav, Jasmin Bishwokarma
Produção: Anup Poudel, Michael Henrichs, Justin Pechberty
Direção de Fotografia: Noé Bach
Música: Frédéric Alvarez
Classificação: 16 anos











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