El Deshielo - Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | O Degelo (El Deshielo) [28º Festival do Rio]

O Degelo transforma um suspense atmosférico em um poderoso retrato das feridas políticas e sociais do Chile.

Escolhido oficialmente pelo Chile para representar o país na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027, o filme segue a história de Inés, uma menina de 9 anos que vive no Chile em 1992. Ela e seus avós resolvem se hospedar em um hotel isolado, próximo a uma estação de esqui nos Andes. No local, ela faz amizade com Hanna, uma esquiadora alemã de 14 anos, e juntas elas criam histórias pelas montanhas. No entanto, quando Hanna desaparece sem deixar rastro algum, a investigação poderá expor segredos ocultos há muitos anos.

Uma das contribuições mais importantes do filme é mostrar que a violência contra a mulher não deve ser pensada apenas a partir do momento em que alguém agride fisicamente uma vítima. Ela também precisa ser compreendida a partir das estruturas sociais que tornam possível ignorar o sofrimento feminino, desacreditar mulheres e proteger a reputação de quem tem poder.

El Deshielo – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Em O Degelo, o desaparecimento de Hanna evidencia o conflito entre querer descobrir o que aconteceu e evitar que o caso se torne um problema público. Os adultos envolvidos reagem a partir de interesses familiares, econômicos e sociais, e a preocupação com a imagem do hotel entra em choque com a urgência de encontrar a jovem. Essa contradição revela três dimensões da violência de gênero: a desumanização da vítima, tratada como problema a administrar; o silêncio como mecanismo que perpetua a impunidade; e a diferença entre enxergar uma mulher e realmente reconhecê-la em sua vulnerabilidade e individualidade.

A relação entre Hanna e Inés também ressaltam como a curiosidade da menina mantém aberta a possibilidade de questionar a versão socialmente conveniente dos fatos. O roteiro mostra que não é preciso classificar o acontecimento como feminicídio para que essa leitura seja relevante: o filme mostra as condições sociais que favorecem a desproteção e a impunidade.

El Deshielo – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

A escolha de contar a história pelos olhos de uma criança é inteligente porque permite que o filme explore as contradições do mundo adulto sem recorrer a explicações excessivamente didáticas. Inés percebe gestos suspeitos, conversas interrompidas e comportamentos que não parecem fazer sentido, mas ainda não possui maturidade para compreender todas as implicações do que presencia. Essa perspectiva aproxima o espectador de sua experiência, fazendo com que o suspense nasça tanto daquilo que descobrimos quanto daquilo que permanece incompreensível. Ao mesmo tempo, a curiosidade infantil desafia a normalização de comportamentos que os adultos aprenderam a aceitar, revelando o absurdo por trás de seus silêncios e conveniências.

Ambientado em 1992, durante a transição democrática chilena, O Degelo aborda um país empenhado em reconstruir sua imagem internacional enquanto ainda carregava as marcas políticas e sociais da ditadura de Augusto Pinochet. A referência à Exposição Universal de Sevilha, onde o Chile apresentou um enorme bloco de gelo antártico como símbolo de sua identidade nacional, reforça essa contradição entre a imagem de modernidade projetada ao mundo e os problemas que permaneciam sem solução. Assim como o hotel tenta preservar sua reputação diante do desaparecimento de Hanna, o país parece interessado em demonstrar estabilidade sem necessariamente confrontar as violências e os silêncios de seu passado.

El Deshielo – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Nesse sentido, o gelo funciona como uma metáfora da memória coletiva, conservando aquilo que está sob sua superfície, mas não podendo impedir que tudo venha à tona. O desaparecimento de Hanna evoca, sem equivaler historicamente a eles, os desaparecimentos ocorridos durante a ditadura, enquanto a reação dos adultos evidencia como a omissão pode sobreviver mesmo após uma mudança de regime. O filme sugere, assim, que a redemocratização não se completa com a substituição de um governo ou a recuperação das instituições, mas exige também o enfrentamento das responsabilidades históricas e das estruturas de silêncio que continuam organizando a sociedade.

 

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

O Degelo | El Deshielo
Chile, México, Espanha, 2026, 110min.
Direção: Manuela Martelli
Roteiro: Manuela Martelli
Elenco: Maya O’Rourke, Saskia Rosendahl, Maia Domagala
Produção: Alejandra García, Andrés Wood, Alex C. Lo
Direção de Fotografia: Benjamín Echazarreta
Música: Mariá Portugal
Classificação: 14 anos

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