Cavalo Selvagem Nove é o tipo de filme que faz lembrar por que o cinema é tão fascinante; uma obra-prima memorável e sagaz.
Ambientado às vésperas do golpe militar de 1973 no Chile, Cavalo Selvagem Nove explora as contradições da atuação americana na América Latina. Ao acompanhar dois agentes da CIA afastados do centro dos acontecimentos, Martin McDonagh constrói uma narrativa que, por trás do humor ácido e das situações absurdas, expõe a relação entre poder, privilégio e responsabilidade política. Na década de 70, o governo americano trabalhou ativamente para enfraquecer a administração socialista chilena, revelando como os interesses da Guerra Fria se sobrepunham à soberania do Chile. Ao escolher personagens que observam esse contexto de uma posição relativamente confortável, o diretor cria um contraste incômodo entre a aparente banalidade de suas preocupações e a gravidade do momento histórico em que estão inseridos.
O filme acompanha dois agentes da CIA que são enviados de Santiago para a Ilha de Páscoa. Enquanto a crise política se intensifica no continente, Chris e Lee veem sua rotina mudar quando um deles se aproxima de duas estudantes rebeldes, colocando em xeque suas lealdades e convicções em meio a um dos períodos mais turbulentos da história chilena.
A escolha da Ilha de Páscoa como cenário reforça essa contradição. Enquanto o Chile se aproxima de uma ruptura democrática que resultaria em 17 anos de ditadura, os protagonistas estão cercados por uma paisagem paradisíaca, aparentemente distantes da violência que se anuncia ou de quaisquer problemas políticos. O diretor usa o comportamento de seus personagens para expor as contradições de uma potência que se apresenta como defensora da liberdade enquanto participa de operações que contribuem para destruí-la.

A escolha da Ilha de Páscoa como cenário reforça essa contradição. Enquanto o Chile se aproxima de uma ruptura democrática que resultaria em 17 anos de ditadura, os protagonistas estão cercados por uma paisagem paradisíaca, aparentemente distantes da violência que se anuncia ou de quaisquer problemas políticos. O diretor usa o comportamento de seus personagens para expor as contradições de uma potência que se apresenta como defensora da liberdade enquanto participa de operações que contribuem para destruí-la.
O humor ácido de Martin McDonagh é um dos grandes trunfos da obra. Os diálogos são absurdamente afiados e os momentos de desconforto fazem rir sem jamais esvaziar a gravidade do contexto histórico. Existe uma ironia particularmente eficaz na maneira como os personagens lidam com acontecimentos que ultrapassam completamente suas pequenas preocupações, como se a brutalidade da política internacional fosse apenas mais um inconveniente a ser administrado. É um humor que não serve apenas para aliviar a tensão, mas para expor as contradições de seus personagens e a própria perversidade das estruturas de poder que o filme coloca em cena.

As atuações de Sam Rockwell e John Malkovich alcançam resultados extraordinários quando entram em conjunto com a direção de Martin. Os dois protagonistas são retratados com uma presença que parece carregar sempre alguma coisa prestes a explodir. A sintonia entre os dois é fundamental para o funcionamento da narrativa, mas é a direção que transforma essa parceria em algo verdadeiramente especial. O controle sobre o ritmo, diálogos, e enquadramentos é excepcional, revelando um cineasta que sabe exatamente o que deseja provocar em cada cena. Tudo parece calculado, mas nunca mecânico; consagrando mais um sucesso de Martin McDonagh que se aproxima da perfeição.
Poucos filmes conseguem criar uma imersão tão profunda a ponto de fazer o espectador perder completamente a noção do tempo. O longa poderia ter cinco horas de duração e, ainda assim, seria difícil não desejar permanecer mais um pouco naquele universo. A riqueza dos diálogos e a construção dos personagens fazem com que o espectador deixe de acompanhar o relógio e simplesmente passe a viver dentro do filme. Quando os créditos chegam, a sensação não é de alívio pelo fim de uma longa sessão, mas de frustração por ter de abandonar um universo tão fascinante.

Ainda há, além de tudo, uma interessante metáfora com relação aos cavalos que perambulam na ilha durante toda a narrativa. No filme, os cavalos podem ser interpretados como uma representação da liberdade que existe à margem das estruturas de poder, selvagens e impossíveis de domesticar por completo.
McDonagh transforma um dos capítulos mais sombrios da história latino-americana em uma experiência cinematográfica que nunca subestima a inteligência do público e que encontra, na ironia, uma forma particularmente contundente de olhar para o poder. É o tipo de filme que faz lembrar por que o cinema é tão fascinante, uma obra-prima memorável e sagaz.
★★★★⯪
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido no 28º Festival do Rio

Cavalo Selvagem Nove | Wild Horse Nine
Estados Unidos, Reino Unido, 2026, 118min.
Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Elenco: John Malkovich, Sam Rockwell, Steve Buscemi
Produção: Martin McDonagh, Graham Broadbent, Peter Czernin
Direção de Fotografia: Ben Davis
Música: Carter Burwell
Classificação: 16 anos










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