Danny Boyle faz do jornalismo um espetáculo caótico, frenético e irregular.
Em 1969, o The Sun estava em uma situação péssima, à beira da falência. Quando a IPC decidiu vender o Sun, um homem chamado Rupert Murdoch conseguiu conquistar o apoio dos sindicatos gráficos ao prometer preservar empregos e acabou comprando o jornal, relançando-o como um tabloide, abandonando o formato tradicional de broadsheet. Como o jornal estava em crise, para tentar mudar isso, Murdoch chamou Larry Lamb, um jornalista que conhecia profundamente o público dos tabloides. A ideia dos dois era simples, mas na época bastante ousada: parar de pensar no que um jornal tradicional achava que as pessoas deveriam querer ler e descobrir o que elas realmente queriam consumir. Em novembro de 1969, o The Sun foi relançado com manchetes enormes, linguagem mais popular, celebridades, televisão, futebol, sexo, fofoca e histórias feitas para chamar atenção imediatamente.
Ink traz os holofotes para dentro dessa luta contra a falência pelas lentes tortas de Dannny Boyle, refletindo sobre como essa compra conseguiu revolucionar o jornalismo na década de 70.

Antes, os grandes jornais britânicos ainda carregavam uma tradição muito forte de jornalismo mais formal, político e institucional. O novo Sun percebeu que não precisava ser respeitável, mas sim interessante o suficiente para as pessoas escolherem ler de manhã. Eles passaram a misturar informação e entretenimento de maneira agressiva, com manchetes provocativas e coloquiais, transformando o sensacionalismo em uma das fórmulas mais poderosas da imprensa moderna.
A câmera torta, os ângulos transversais, os diálogos que parecem nunca terminar e uma montagem repleta de cortes reafirmam um estilo que o diretor já domina há décadas. Tudo acontece ao mesmo tempo e quase nunca há espaço para o espectador respirar. Existe uma quantidade enorme de informação sendo jogada na tela, em uma dinâmica que chega a lembrar a lógica dos vídeos curtos das redes sociais, com estímulos constantes e a necessidade permanente de manter a atenção. O problema é que nem sempre existe algo tão interessante por trás de toda essa movimentação.

O primeiro ato é o exemplo mais claro disso. Ink começa como uma espécie de versão menos interessante de O Lobo de Wall Street, acompanhando a ambição de Rupert Murdoch e Larry Lamb em meio à disputa para transformar o The Sun. Para quem não conhece profundamente a história do jornal, em um primeiro momento, não parece haver uma história especialmente relevante para justificar sua transformação em longa-metragem.
A situação melhora quando a corrida pelo The Sun começa a ganhar forma e a transformação do jornal deixa de ser apenas uma sucessão de reuniões, negociações e disputas internas. É nesse momento que o filme encontra um assunto mais interessante por trás da compra: a criação de uma nova maneira de fazer jornalismo popular, baseada na disputa pela atenção do leitor. Boyle entende isso visualmente e transforma a redação em um ambiente caótico, no qual tudo precisa ser mais rápido, mais chamativo e mais provocativo. Só que mesmo quando encontra seu eixo, Ink continua funcionando em altos e baixos. Há sequências extremamente interessantes seguidas por momentos mornos, sem que o filme consiga estabelecer um ritmo constante.

O melhor exemplo disso acontece quando o caso de Muriel McKay entra de maneira mais decisiva na narrativa. Sem muitos spoilers, a partir daí Ink muda de gênero e praticamente se transforma em um thriller policial. É um dos pontos mais fortes do filme justamente porque a energia de Boyle finalmente encontra uma situação capaz de sustentá-la. A câmera inquieta, os cortes rápidos, os diálogos sobrepostos e a sensação permanente de urgência passam a ter uma função dramática mais clara.
Depois de atingir seu momento mais envolvente, Ink volta a perder força e recupera a irregularidade que marcou boa parte da projeção. O filme funciona em picos, quando encontra uma situação capaz de acompanhar sua velocidade, Danny Boyle entrega cenas excelentes; quando isso não acontece, toda aquela movimentação começa a parecer apenas barulho. O The Sun aprendeu a transformar atenção em produto, e Boyle faz algo parecido com o espectador, tentando capturá-lo a cada corte, cada movimento e cada informação. Às vezes funciona brilhantemente. Em outras, parece apenas uma tentativa desesperada de não deixar a atenção escapar.
★★★⯪☆
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido no 28º Festival do Rio

Ink
França, Estados Unidos, Reino Unido, 2026, 116min.
Direção: Danny Boyle
Roteiro: James Graham
Elenco: Nisrin Erradi, Hajar Graigaa, Hind Braik
Produção: Danny Boyle, Tessa Ross, Michael Ellenberg
Direção de Fotografia: Alwin H. Küchler
Música: Daniel Pemberton
Classificação: 14 anos










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