Reparação (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Entrevista | Marcus Curvelo fala sobre “Reparação”, luto, cinema e a tentativa de dar sentido à dor [15° Olhar de Cinema]

Longa metragem integra a Mostra Competitiva Brasileira no 15° Olhar de Cinema.

Diretamente do Olhar de Cinema 2026, Pedro Gomes (crítico de cinema) conversa com Marcus Curvelo, diretor de Reparação, longa presente na Competitiva Brasileira do festival. Na conversa, o cineasta falou sobre o processo de transformar o luto em cinema, a relação entre arte e cura e as obras que o acompanham emocionalmente.


Pedro Gomes: Acho que estamos diante um dos filmes, se não o filme mais emocionante da mostra. Qual é a sensação de estar mostrando uma das maiores dores da sua vida ao público?

Marcus Curvelo: Eu acho que, antes de tudo, foi uma forma de elaborar esse luto, essa dor gigantesca. Eu acho que foi a forma que eu consegui de fazer isso. Por mais que exista terapia e tudo mais, acho que desde o princípio, quando eu comecei a fazer cinema, quando eu comecei a escrever, a filmar, eu tinha essa necessidade de expressão, de tentar de alguma forma dar sentido pras coisas que eu não conseguia resolver na vida real, vamos dizer assim.

Eu já tava também há algum tempo filmando com meus pais, de forma um tanto periférica, mas eles estavam presentes nas obras. Eu vim me colocando também nos filmes há algum tempo. Na pesquisa mais teórica também, eu vinha me interessando por esse tipo de trabalho, por autores e autoras que se colocam, que imbricam vida e trabalho, que de alguma forma conseguem lidar com questões através da arte.

Pareceu um caminho natural que eu fizesse algo a partir do que aconteceu, que foi perder meus pais de forma muito próxima. Entre perder meu pai e minha mãe adoecer e também vir a morrer foi muito pouco tempo. Um pouco mais de um ano e meio.

Pareceu muito natural, a partir do caminho que eu vinha fazendo e da minha pesquisa nos últimos filmes, que isso viraria um filme de alguma forma. É claro que a gente nunca sabe o que vai ser. E quando se começa a filmar, ainda mais uma situação dessa, em que tudo foge do controle, o momento de filmar é mais para lidar com o que está acontecendo do que tentar fazer qualquer tipo de construção narrativa.

Depois que eles morreram, enquanto eu ainda estava com esse material, comecei a entender que iria fazer realmente um longa-metragem. O que eu precisaria filmar mais, construir mais para dar sentido para ele. E aí chegamos aqui.

Através do processo de filmar e mais ainda na montagem. E agora também está sendo um processo novo mostrar o filme e ouvir das pessoas.

É um grande processo de elaboração. Elaboração do que aconteceu, do luto, do trauma e da própria vida. Dos desafios para além disso, do que eu vinha tentando reparar, tentando melhorar. Então eu acho que é o resultado de um processo, mas que é muito natural para mim. É mais uma etapa dessa elaboração.


Pedro Gomes: Existe algo muito forte no filme relacionado ao tempo, à repetição das coisas, à causa e efeito e na forma como você utiliza as sobreposições. Como você enxerga isso?

Marcus Curvelo: Eu acho que uma coisa entre o tempo e também entre a repetição das coisas, causa e efeito, ou então esse lugar espiralar. Até o título do filme vem um pouco disso. Aquela sensação de que tem sempre coisa quebrada. Tem sempre coisa para consertar. Não dá para construir algo do zero.

Essas sobreposições que o filme mostra, para além da passagem de tempo, para além dessa sensação de “agora vai”, aí será que vai? Tem que resolver isso aqui antes. Ou então: eu queria ter falado disso nesse momento com essa pessoa, não consegui, vou tentar falar agora.

Mas agora ainda faz sentido? Eu acho que é por aí.


Pedro Gomes: Você querer voltar não ao lugar, mas ao momento?

Marcus Curvelo: Sim.

É aquela coisa de quando você sente falta de um lugar, você volta lá e vê que não é a mesma coisa. Não é o que você está procurando.


Pedro Gomes: Como você vê essa relação entre arte e cura? Não só para quem faz, como foi o seu caso, mas também para quem assiste?

Marcus Curvelo: Para mim, desde a infância/adolescência, uma das coisas que me dava muito alívio existencial era a arte.

Cinema principalmente. Eu comecei gostando muito de cinema antes mesmo de querer fazer cinema. Às vezes eu sentia, adolescente, que estava muito triste e precisava ver um filme que fosse mais triste ainda para poder chorar tudo mesmo.

Ou então me conectar com algum personagem que de alguma forma falava o que eu estava sentindo. Não necessariamente o mesmo drama, o mesmo problema, mas algum lugar de vulnerabilidade. Até música também.

Eu ouvia músicas mais tristes e as pessoas perguntavam: “você não fica mais triste ouvindo isso?” Eu falava: “não”.

Quando eu estou triste e boto uma música dessas, eu consigo chorar, ter uma catarse e depois fico bem. Se eu estiver triste e colocar uma música super animada, vou ficar mais triste ainda, porque não vou conseguir acessar aquela felicidade.

Quando estou triste, me conectar com a tristeza dos outros me ajuda. Conseguir ter empatia. E também perceber que o mundo é muito maior. Existem pessoas passando por coisas muito difíceis em todos os lugares, o tempo todo. E estamos todos juntos nisso.

Estamos conectados pela dor também. Se alguém se sentir curado por esse filme, pode estar passando por algo parecido. Ou então vai colocar os próprios problemas em perspectiva. Ou vai entender que estamos todos juntos.

Eu acho que dá para fazer certas conexões de empatia.


Pedro Gomes: Existem filmes que te influenciaram ou te emocionam profundamente?

Marcus Curvelo: Tem dois filmes especificamente que eu estudei para minha dissertação de mestrado. Um é No Home Movie, da Chantal Akerman.

É o último filme dela e ela filma a mãe no fim da vida. Eu vi esse filme quando meus pais ainda estavam saudáveis, mas eu já estava lidando com outras questões minhas. Tem essa coisa da distância também. Ela mora longe da mãe, fala por Skype e toda vez que volta para visitá-la ela está um pouco pior.

Você sente essa dor dela. E todos os filmes do Jonas Mekas me fazem chorar.

Qualquer filme do Jonas Mekas eu choro. O que eu mais gosto é As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty. É um filme de mais de quatro horas, um apanhado da vida dele. Casamento, filhos, pequenos momentos. Tem uma coisa de captar um instante, captar um momento de estar presente na vida. Esses dois filmes mexem muito comigo.


Pedro Gomes: E filmes mais recentes?

Marcus Curvelo: Malu. Maravilhoso. Chorei muito também. Muito difícil. Muito bom. E La Chimera. Eu acho um filme tão melancólico. Apichatpong me faz chorar. Eu chorei muito com Memória.


Pedro Gomes: E música?

Marcus Curvelo: Às vezes nem precisa ter letra. Tenho ouvido mais coisas instrumentais. Uma coisa meio eletrônica, pop eletrônico experimental. Oneohtrix Point Never, umas coisas assim. Mas já chorei muito com Caetano também. Com Gilberto Gil, com certeza.

Minha mãe amava muito Caetano. Meu pai gostava mais de Nelson Gonçalves.

Roberto Carlos também. Vamos admitir. É bom.

 

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