Segundo longa metragem do diretor participa da Mostra Competitiva Brasileira no Olhar de Cinema 2026.
Diretamente do Olhar de Cinema 2026, o crítico de cinema Pedro Gomes conversa com Rafhael Barbosa, diretor de Olhe Para Mim, seu primeiro longa-metragem de ficção. Na conversa, ele falou sobre ancestralidade alagoana, a simbologia da Rasga Mortalha, os sonhos que inspiraram a narrativa e os desafios de filmar em locações remotas de Alagoas.
Pedro Gomes: Para começar, se apresente para nossos leitores.
Rafhael Barbosa: Eu sou Rafhael Barbosa, sou realizador alagoano, diretor do longa-metragem Olhe Para Mim. Olhe Para Mim é meu primeiro longa-metragem de ficção. Antes eu lancei Cavalo, que é um documentário híbrido. Em 2020 ele estreou na Mostra de Tiradentes e, em 2021, foi para o circuito dos cinemas.
Com Olhe Para Mim, eu dou continuidade a uma pesquisa que tenho feito sobre ancestralidade brasileira e ancestralidade alagoana. É um filme extremamente negro, assim como Cavalo, e é um filme em que eu exploro alguns símbolos do imaginário nordestino e alagoano, de onde eu vim.
Eu nasci em Arapiraca, que é uma cidade no Agreste de Alagoas, e cresci numa época da cidade em que não existiam salas de cinema. Existiram salas de cinema em Arapiraca na década de oitenta e elas foram fechando, assim como aconteceu no Brasil inteiro. Durante minha infância e adolescência eu não tinha acesso às salas de cinema, mas me apaixonei pelo cinema com as videolocadoras e vendo muito filme de gênero.
Então eu acho que foram principalmente esses filmes que me fizeram sonhar em fazer cinema na infância. E quando tive a oportunidade de fazer meu primeiro longa de ficção, eu queria explorar essa paixão. Eu acho que fiz esse filme para essa criança apaixonada por filmes de gênero. O filme é uma carta para ela também.
Pedro Gomes: Se você tivesse que definir Olhe Para Mim em uma palavra, qual seria?
Rafhael Barbosa: Seria sonho. Eu acho que o filme tem uma camada onírica muito importante. Tem uma série de outros símbolos, de outras camadas, mas eu acho que o filme é um convite para sonhar.
Pedro Gomes: Uma coisa que me chamou muita atenção foi a figura da ave. Sem dar muitos spoilers sobre o pássaro e essa questão da transformação, o que essas aves representam para você?
Rafhael Barbosa: Tem um mito que o filme aborda. O principal deles é o mito da Rasga Mortalha, que no Nordeste é muito difundido.
Ele diz que, se você escuta o som da Rasga Mortalha — uma coruja branca que frequenta cemitérios —, quer dizer que é uma pressagem de morte, que alguém daquela casa vai morrer. Era muito assustador ouvir esse som. Até hoje, quando a gente escuta, se arrepia.
Isso ficou em mim, esse lugar do medo que vem desse som e do que ele significa. Aí eu me aprofundei na pesquisa para entender esse simbolismo.
A Rasga Mortalha é um mito que existe em outras culturas também. Na Inglaterra ela é chamada de Coruja da Torre, nos Estados Unidos é conhecida como Coruja de Cemitério e, nas religiões de matriz africana, ela tem um paralelo que é a Iyá Mi Oxorongá, um orixá que representa a grande mãe, a mãe primordial. É um orixá muito poderoso e temido também.
Então o filme pega esse mito e ressignifica, bebendo um pouco dessas referências e incluindo ele numa jornada do personagem. Principalmente do personagem Ivan, um jovem artista que, a partir de um acontecimento muito trágico e dramático de sua vida, passa a se relacionar intimamente com essa figura e se transmutar num filhote de Rasga Mortalha.
Pedro Gomes: Sobre sonhos no geral, você acha que eles representam mais quem a gente é ou quem a gente gostaria de ser?
Rafhael Barbosa: Eu acho que os sonhos estão num lugar de mistura, no inconsciente, dos nossos desejos e dos nossos medos também.
Por exemplo, eu tinha durante muito tempo — ainda tenho, mas faz tempo que não acontece — um sonho recorrente em que eu preciso voltar para o ensino médio. É como se tudo que eu fiz, tudo que eu tivesse construído, fosse revogado. Meu diploma fosse caçado e eu tivesse que voltar para estudar de novo.
Que é o meu maior pesadelo, porque foi a fase mais difícil da minha vida. Eu sofri muito bullying, muita homofobia. E consegui superar aquilo e fazer as coisas que eu queria fazer, apesar de quão improvável era o sonho de fazer cinema vindo de onde eu vim.
Sempre quando estou em períodos de muita ansiedade ou dificuldade, eu tenho esse sonho. Como se tivesse voltado para aquele mesmo lugar de tensão e agonia.
No filme eu quis explorar também esse lugar do sonho recorrente. O protagonista começa falando sobre um sonho que ele tem sobre o desaparecimento da mãe, que é uma mistura de sonho com memória inventada. O filme mistura um pouco dessas coisas.
O sonho nesse lugar de projeção. Esses personagens que surgem também podem ser lidos como uma projeção do protagonista.
Pedro Gomes: Você acha que o personagem está procurando apenas a mãe ou também alguma outra coisa que falta nele?
Rafhael Barbosa: Eu acho que ele procura a mãe porque é uma ausência muito importante. Não ter uma mãe ou perder uma mãe é algo transformador para qualquer um.
Mas ao mesmo tempo eu acho que não é só a mãe. São as outras coisas que ele não tem. Eu acho que ele quer ter a oportunidade de encontrar um lugar que o caiba, que o aceite como ele é, em que ele possa lidar com iguais.
Então, quando ele encontra esses personagens, esses seres místicos, estranhos, ele vê que pode caber naquele modelo de família. Um modelo completamente diferente do tradicional e um modelo onde ele não cabe.
Pedro Gomes: Você acha que o filme também fala sobre encontrar liberdade?
Rafhael Barbosa: Com certeza.
Eu sou uma pessoa que cresceu no interior, numa cidade onde a religião é muito presente. O cristianismo estava em todos os lugares. Os símbolos, a fé. E essa é uma fé que em muitos momentos pode ser opressora para pessoas queer.
A gente situa o filme numa cidade extremamente religiosa, que tem uma igreja a cada esquina. Só esses símbolos já são muito opressores, porque estão sempre nos lembrando da ideia do pecado, da culpa cristã.
Inclusive, quando o personagem se fantasia para a festa da cidade, ele se fantasia de demônio. Então ele está sempre num lugar de oposição a esses símbolos.
Quando ele tem a mínima oportunidade de sair dali, ele se lança nessa jornada. Ele pede para ir com aquela dupla porque quer experimentar outras possibilidades de estar no mundo. Eu acho que é sobre liberdade também.
Pedro Gomes: O vermelho aparece muito no filme. Foi algo intencional?
Rafhael Barbosa: Sim. Era um elemento importante para nós trazer esse calor do vermelho, que simboliza tantas coisas diferentes.
É o sangue, que está lembrando a gente dos perigos e do gênero do terror. É também a intensidade da paixão que ele está vivendo pelo Ivan. O vermelho era importante. Inclusive isso está na comunicação do filme, no cartaz, nos letreiros iniciais. O filme começa com um vermelho muito forte, hipnotizante.
Pedro Gomes: Quando os créditos sobem, o que você espera deixar na cabeça dos espectadores?
Rafhael Barbosa: Eu tinha vontade de emocionar.
Eu acredito muito que o público pode se conectar com a história, por mais subjetiva que ela seja, a partir de um lugar que não é necessariamente racional.
Eu acho que o arco da história tem uma força muito universal.
Sem dar spoilers, eu acho que o filme termina de uma maneira muito bonita, num lugar de acolhimento e de realização do personagem. Do que ele busca.
Eu queria que a gente saísse feliz do filme.
Entrevista realizada no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Brasileira)












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