Majestoso, tocante e memorável filme cearense encerra com chave de ouro a Mostra Competitiva Brasileira do 15º Olhar de Cinema.
Diretamente do Festival de Berlim, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha tem sua estreia nacional no solo paranaense. Em uma máquina de ressonância magnética, Rosa é instruída a pensar em um momento feliz de sua vida. Sem encontrar essa lembrança, ela parte em uma odisseia subconsciente onde reencontra sua mãe, Dalva, com quem inventa memórias inexistentes.
É estranho pensar que, talvez nossas melhores memórias sejam inventadas? O filme nos conduz para uma atmosfera reflexiva e multi-interpretativa que encara a vida como um road movie esperançoso. O relacionamento inventado entre mãe e filha levanta uma questão tão delicada quanto universal: em que momento percebemos que amamos alguém por quem ela realmente é, e não pela versão que construímos dela dentro de nós?

Ao transformar a imaginação em território de reencontro, Janaína Marques parece sugerir que a memória não é um arquivo imutável, mas um organismo vivo, constantemente reescrito pelas nossas ausências. Ela não trata essas invenções como mentira, mas sim enxerga nelas uma tentativa humana de reorganizar o passado para conseguir seguir adiante. Sentimos que a protagonista tenta preencher os vazios deixados por uma história interrompida cedo demais. Nessa jornada entre o real e o inventado, o filme encontra uma beleza melancólica ao tratar a fantasia não como fuga, mas como uma forma legítima de sobrevivência emocional. É uma obra que fala sobre perda sem se afundar na tristeza, encontrando beleza na capacidade que temos de imaginar novos significados para aquilo que nunca tivemos. Talvez algumas ausências jamais possam ser preenchidas, mas podem ser transformadas em algo que nos permita continuar a caminhada.
Em “Recordar, repetir e elaborar”, de 1914, Freud sugere que repetimos certas experiências não porque desejamos permanecer presos ao sofrimento, mas porque existe uma tentativa inconsciente de finalmente resolver aquilo que ficou inacabado. Sob essa perspectiva, a jornada de Rosa ganha uma camada ainda mais comovente. Ao inventar memórias ao lado da mãe, ela não está apenas fantasiando uma realidade alternativa, mas ensaiando possibilidades de afeto, diálogo e pertencimento que lhe foram negadas. Como alguém que retorna inúmeras vezes à mesma ferida na esperança de encontrar um desfecho diferente, Rosa transforma a imaginação em um espaço onde o passado pode ser revisitado, elaborado e, quem sabe, parcialmente reconciliado.

Há também uma parte da narrativa onde o filme parece promover uma inversão de perspectivas. Pela primeira vez, Rosa deixa de ocupar apenas o lugar da filha abandonada e passa a experimentar algo próximo da trajetória da própria mãe. Se antes ela tentava compreender a ausência a partir da dor de quem ficou, agora parece tentar enxergá-la pelos olhos de quem partiu. É como se Rosa imaginasse a possibilidade de sua mãe ter encontrado felicidade em outro lugar, construído novos afetos e seguido uma vida que já não comportava o retorno. Esse movimento soa como uma tentativa de humanizar a mãe, retirando-a do papel de vilã da própria história. Ao se colocar simbolicamente em seus passos, Rosa parece buscar uma compreensão que a realidade nunca foi capaz de oferecer: a de que alguém pode amar profundamente e, ainda assim, não conseguir voltar.
O filme tem a capacidade de tocar em sentimentos difíceis de definir. Não se trata apenas de saudade, abandono ou amor, mas de tudo aquilo que permanece dentro de alguém quando uma história termina sem um ponto final. Em vez de procurar respostas, a narrativa parece aceitar que certas questões acompanharão seus personagens para sempre. E talvez seja justamente por isso que ela emociona. Porque entende que nem toda busca termina em encontro e que, às vezes, seguir em frente significa aprender a conviver com aquilo que nunca será completamente compreendido.

No fim, mais do que uma história sobre memória ou ausência, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha é um filme sobre a maneira como os seres humanos convivem com aquilo que não podem mudar. A narrativa transita entre saudade, afeto, culpa e esperança sem se prender a uma única interpretação, permitindo que cada espectador encontre seus próprios significados ao longo da jornada.
Crítica por Pedro Gomes.
Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Brasileira)
Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha
Brasil, 2026, 92min.
Direção: Janaína Marques
Roteiro: Xenia Rivery, Pablo Arellano, Pedro Cândido, Taís Monteiro
Elenco: Verônica Cavalcanti, Luciana Souza
Produção: Maurício Macêdo
Direção de Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Música: Clau Aniz
Classificação: 16 Anos












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