Uma Família Normal transforma drama familiar em um suspense brutal e inquietante.
Baseado no livro do escritor holandês Herman Koch, “Uma Família Normal” chega aos cinemas brasileiros para provar mais uma vez que o cinema coreano segue sendo um dos maiores dessa geração cinematográfica. Uma obra intrigante e reflexiva a respeito não apenas da sociedade coreana, como também da malevolência do homem.
O diretor Hur Jin-Ho conduz o filme logo nos primeiros minutos de maneira impactante e brutal, com uma briga de trânsito que acaba gerando a morte de um homem e deixando sua filha de apenas oito anos em estado gravíssimo. Logo em seguida, conhecemos os dois irmãos que irão protagonizar essa história: Jae Gyu, um médico bondoso e Jae-Wan, um advogado ganancioso, onde ambos se encontram envolvidos neste acidente, o médico tentando salvar a vida da menina, enquanto o advogado responde por seu cliente, filho de um grande executivo, responsável por gerar o acidente. Em lados opostos os irmãos fazem o possível para alcançar seus objetivos.

Com sequências de planos abertos, em que uma sala grande e espaçosa se torna apertada e desconfortável, assistimos em um restaurante refinado a um jantar dos dois irmãos, acompanhados de suas respectivas esposas, em uma falsa amizade entre casais, cercado de alfinetadas e intrigas. Enquanto os adultos desfrutam de seu cansativo jantar, os dois adolescentes, filhos de ambos os casais, aproveitam a noite sozinhos para se divertir.
A partir desse momento, diferente das obras anteriores de Hur Jin-Ho, em sua maioria apresentando histórias delicadas e românticas, o roteiro ganha um tom ainda mais sombrio ao descobrir que durante o jantar, os jovens adolescentes espancavam um morador de rua deixando-o em coma, sendo possível descobrir o crime apenas a partir da gravação de uma câmera de segurança. Os irmãos se veem mais uma vez presos de lados opostos em um caso, que é ainda mais complexo que o presenciado em seus trabalhos. Jae-Gyu quer entregar o filho, enquanto Jae-Wan deseja esconder as provas e salvar sua filha, ao passo que se questionam sobre a moralidade de seus atos.

O diretor traz importantes questionamentos sobre o quanto os pais realmente influenciam nas vidas de seus filhos, ao longo de toda a trama, as famílias se perguntam se erraram como pais ou, como Rousseau mesmo disse, a sociedade é quem corrompe o homem. Se devem lutar pela liberdade de seus filhos, ou por seus valores e responsabilidades ao moldarem o tipo de ser humano que desejam ser, fazendo com que nós, os espectadores, questionamos sobre se fossemos nós, de que lado ficaríamos, lutar por aqueles que amamos ou pelo o que realmente é certo?
Cada um dos seis personagens que compõem essa família que com certeza não é nada normal, possui uma complexidade própria ao que se desenvolvem ao longo da narrativa, ódio, confusão, desespero, cada personagem apresenta de forma única seus sentimentos mais complexos, e pode-se pensar até mesmo primitivos, que são todos muito bem executados pelos atores, em especial, o excelente trabalho de Sol Kyung-Gu (Jae-Wan) e Jang Dong-Gun (Jae-Gyu).

Ao observarem suas próprias vidas, suas convivências com seus filhos, seus ideais mudam; Jae-Wan agora acredita que os jovens devem se confessar, enquanto Jae-Gyu crê no arrependimento de seu filho acreditando que este mereça uma segunda chance. E como todo bom suspense, “Uma Família Normal” é recheado de surpresas, e durante mais um jantar entre os dois casais, Jae-Wan revela uma conversa entre os dois adolescentes, que de maneira fria e egoísta em meio a piadas, zombam sobre o crime cometido. Os casais se encontram chocados, tristeza e ódio emana o ambiente até que uma briga surge ao que os quatro decidem ir embora, e a partir de uma montagem extremamente tensa, o diretor nos deixa mais uma vez boquiabertos, ao que Jae-Gyu, o médico empático, assim como Caim e Abel, mata seu irmão a sangue frio.
Apesar de o livro “O Jantar” já ter tido diversas adaptações para o cinema, o longa sul-coreano consegue se destacar e inovar em toda sua narrativa, mantendo momentos imprevisíveis e surpreendentes mesmo a quem conheça a história. Hur Jin-Ho permite que a história seja atual, que funciona tão bem com tantas reflexões sombrias, mas infelizmente muito reais, sobre essa “família normal”.
Crítica por Penelope Gussonato.
Uma Família Normal | 보통의 가족
Coréia do Sul, 2023, 116 min.
Direção: Hur Jin-ho
Roteiro: Park Eun-kyo, Lee Ji-min, Ma Dae-yun
Elenco: Sul Kyung-gu, Jang Dong-gun, Kim Hee-ae
Produção: Park Min-cheol
Direção de Fotografia: Go Rak-sun
Música: Cho Sung-woo
Classificação: 16 anos
Distribuição: Pandora Filmes











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