Crítica – Setembro 5 (September 5)

Uma forma nova (e incrível) de se contar uma história não tão antiga.

O filme Setembro 5 chega aos cinemas apresentando o ponto de vista de uma equipe de transmissão televisiva, que se vê perante um ataque terrorista em plenas olimpíadas; baseado na história real do chamado “Massacre de Munique” a premissa promete tensão, emoção, medo e reflexão, tudo que uma obra precisa em termos de narrativa para se tornar um clássico.

Resumindo bastante os acontecimentos, um grupo terrorista palestino chamado Setembro Negro realizou o ataque a comissão olímpica de Israel em 72, exigindo a libertação de mais de 200 presos palestinos sob domínio israelita.
Mas o foco fica inteiro na estrutura de transmissão dos acontecimentos, na tensão de descobrir o que está acontecendo, no desespero generalizado, entre muitas outras sensações que eu garanto que vão te manter na ponta da poltrona durante toda a sessão.

September 5 – Paramount Pictures (2024)

Em notas gerais podemos citar:
Uma direção excelente, frenética e claustrofóbica, que somada a atuações intensas e trilha sonora imersiva colocam o público no evento e personagens no limite da moralidade, constantemente em dúvida entre entregar a notícia a todo custo ou abrir mão da história em nome da empatia. Há momentos em que a direção não vai agradar a todos, algumas escolhas de enquadramento ou alguns momentos de câmera na mão podem causar um incômodo em alguns espectadores, mas não diminui a qualidade da direção que consegue desenrolar a história inteira dentro de, praticamente, uma única ambientação.

O filme não se aprofunda na questão política de Israel e Palestina, mantendo o foco na posição alemã e na “culpa pós guerra” latente no país, trazendo o sentimento do povo alemão quase um personagem à parte. Um desejo de superação do passado que leva a decisões perigosas e revoltantes para quem vê de fora (para não dizer decisões burras às vezes). Ainda sim, podemos ver na tela mais um dos muitos episódios dessa novela violenta que se estende ao longo da história, dos conflitos no oriente médio. Deixando claro o ciclo que se repete, um ataque, uma vingança, a vingança da vingança e por assim vai.

September 5 – Paramount Pictures (2024)

Uma história de primeiras vezes; aniversário de 20 anos das olimpíadas, primeiros jogos a serem transmitidos ao vivo e a cores na tv, primeiros jogos a serem realizados na Alemanha pós 2 guerra, auge da guerra fria, dentre outros títulos marcantes para a época. A coincidência seria um exagero se não fosse real. Inclusive a história é muito fiel e sensível aos acontecimentos, retratando as vítimas com humanidade e os terroristas com o distanciamento da comunidade civil palestina.

Agora, para a felicidade de todos do ramo audiovisual, sejam profissionais ou entusiastas, eu só digo que vão assistir! Esse filme tem uma das melhores direções de arte que eu vi nos últimos tempos, os figurinos, os equipamentos, todo funcionamento dos bastidores de uma transmissão ao vivo naquela época, filme sendo revelado em salas escuras, técnicas de lettering montando as legendas na hora manualmente, as trocas de rolos de filme, a forma de operar as câmeras extremamente pesadas que precisavam de três ou quatro pessoas para serem movidas. Eu poderia falar por horas só da parte técnica deste filme, toda cenografia e os objetos cenográficos são uma delícia de assistir. Numa época onde praticamente tudo é feito em digital, ver todo o processo manual de gravação e transmissão de imagem e som, é reconfortante.

Claro que todos os filmes tem seus defeitos, mas acredito que sejam meros detalhes olhando a obra como um todo, e dos poucos que consigo me lembrar não posso comentar se dar spoiler. Garanto que os poucos detalhes narrativos que geram um incômodo, são mínimos e não impactam em nada a impressão final do filme.

September 5 – Paramount Pictures (2024)

O filme pode “agradar a gregos e troianos”, trazendo uma história de tensão constante e frenética ao mesmo tempo que não é explicitamente violento. E se, assim como eu, você não viveu os anos 70 e não presenciou esse momento da história, este filme é uma boa forma de começar a se inteirar sobre esse acontecimento, dá para ver que tem muita pesquisa e muito estudo dos fatos, trazendo muitas discussões socioculturais e atuais; não só sobre o conflito histórico entre os povos árabes, mas entre os próprios efeitos de conflitos em geral, nas gerações seguintes; as dificuldades de interação entre os países depois de um conflito; as cicatrizes emocionais que ficam nos civis que sempre são os mais afetados e muito mais.

Ainda é muito cedo para dizer qual posição o filme vai ocupar nas listas de melhores e piores no fim de 2025, mas posso apostar que vai virar um queridinho de muitos cinéfilos, principalmente para os fãs de obras de época e histórias reais.

 

Crítica por Amanda Cristina Alves.

 

Setembro 5 | September 5
Estados Unidos/Alemanha, 2024, 95 min.
Direção: Tim Fehlbaum
Roteiro: Tim Fehlbaum, Moritz Binder, Alex David
Elenco: Peter Sarsgaard, John Magaro, Ben Chaplin
Produção: John Wildermuth, Thomas Wöbke, Philipp Trauer
Direção de Fotografia: Markus Förderer
Música: Lorenz Dangel
Classificação: 12 Anos
Distribuição: Paramount Pictures

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