Crítica – Queer

A solidão na busca incessante por conexão e identidade.

Desde Call Me by Your Name, Guadagnino sempre explora como temas centrais o desejo, a identidade e a perda. Em cada um de seus filmes, ele mergulha mais fundo nas nuances das emoções humanas, às vezes com pitadas características de outros gêneros, como comédia ou horror, mas sempre mantendo sua assinatura visual e narrativa. O percurso de Luca Guadagnino evidencia sua capacidade de reinventar histórias de maneira ousada e sensual. Com Queer, ele parece estar voltando ao terreno intimista que o consagrou, mas com a maturidade artística adquirida ao longo de sua carreira.

Em Queer, na Cidade do México dos anos 1950, William Lee, um expatriado americano de quase quarenta anos, leva uma vida solitária em meio a uma pequena comunidade americana. No entanto, a chegada à cidade de Eugene Allerton, um jovem estudante, leva William a finalmente estabelecer uma conexão significativa com alguém.

Queer – Mubi/Paris Filmes (2024)

Daniel Craig, sem dúvida, é o ponto-chave da obra. O ator interpretou James Bond por 15 anos, de 2006 (Casino Royale) a 2021 (No Time to Die). Sua longa permanência no papel moldou uma das representações mais icônicas e complexas do agente 007. Após o espectador se acostumar com um personagem que personificava o controle e o poder, Luca traz Craig em Queer para explorar exatamente o oposto, como desejo não correspondido, alienação e fragilidade emocional. Isso traz uma excelente recontextualização do ator além do arquétipo de agente secreto, desafiando sua construção anterior como símbolo da masculinidade tradicional.

Muitas pessoas classificam Queer como clichê por abordar a homossexualidade como um reflexo da solidão, mas é importante lembrar que a história foi escrita em um período em que a homossexualidade era extremamente marginalizada em grande parte do mundo, ocasionando uma solidão estrutural resultante da opressão social e da invisibilidade em relação à sociedade. O fato de o protagonista ser um expatriado no México simboliza a fuga de alguém que não consegue encontrar um lugar de pertencimento em um mundo extremamente preconceituoso, e seu desejo constante por Eugene é tanto físico quanto uma tentativa de preencher um vazio emocional.

Queer – Mubi/Paris Filmes (2024)

Na obra de Luca Guadagnino, podemos ver várias imagens de cobras com um tom psicodélico, e elas desempenham um papel crucial no simbolismo do filme, refletindo temas presentes tanto em sua adaptação cinematográfica quanto no livro de Burroughs. Assim como na Bíblia Sagrada, a serpente em Queer evoca um sentimento de tentação, representando os desejos intensos e não correspondidos de Lee, frequentemente vistos como pecaminosos devido à época em que a história se passa. Os movimentos sinuosos da serpente podem ser interpretados como uma metáfora visual para o fascínio e a obsessão de Lee por Allerton, nos quais o desejo é irresistível e também ameaçador.

Em várias cenas, como na imagem acima, a cobra é vista comendo o próprio rabo. Esse símbolo, conhecido como Ouroboros, é uma representação antiga e universal de ciclo, eternidade, autodestruição e renascimento. A obsessão de Lee por Allerton é um belo exemplo desse ciclo autodestrutivo de Ouroboros. Ao alimentar sua obsessão, Lee tem seu lado emocional completamente consumido por ela, deixando-o em um estado de sofrimento e solidão. Essa ação entra em um paradoxo no qual, para nutrir seu prazer, o personagem precisa abrir mão de parte de si mesmo, em um ciclo vicioso.

Queer – Mubi/Paris Filmes (2024)

Em suma, Queer é um drama que traz uma reflexão sobre o ciclo eterno de desejo, dor e autodescoberta, que tanto define a vida do protagonista como a própria essência do filme. A cobra que devora a si mesma é tanto um símbolo de fim quanto de começo, sugerindo que o sofrimento de Lee pode levá-lo a uma transformação ou entendimento maior sobre si mesmo, mesmo que essa transformação e renovação surja a partir da dor.

 

Crítica por Pedro Gomes.

 

Queer
Itália/Estados Unidos, 2024, 137 min.
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: Justin Kuritzkes
Elenco: Daniel Craig, Drew Starkey, Jason Schwartzman
Produção: Marco Morabito, Luca Guadagnino, Zachary Fox
Direção de Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom
Música: Trent Reznor, Atticus Ross
Classificação: 16 anos
Distribuição: Mubi/Paris Filmes

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