Crítica – Placa-Mãe

Uma carta de amor ao cinema de animação e um louvor à Minas Gerais.

“Placa-Mãe” é um grande marco para a animação brasileira, e especialmente para o cinema de Minas Gerais, ao unir ficção científica com um contexto sociopolítico bastante atual e profundamente nacional. O filme narra a jornada emocional e ética de Nadi, uma androide com cidadania que conquista o direito de adotar duas crianças, David e Lina. No entanto, um político sensacionalista e influenciador digital levanta diversas controvérsias sobre o caso, a fim de ganhar popularidade para sua candidatura à presidência do Senado. Um mal-entendido leva David a fugir e se envolver em diversas aventuras, levando Nadi a decidir entre manter sua cidadania ou informar as autoridades sobre a fuga. O roteiro consideravelmente bem escrito explora questões como maternidade, cidadania, ética da inteligência artificial e as complexas interações entre tecnologia e política.

A escolha de Minas Gerais como cenário principal adiciona uma camada rica de significado à história. O estado é historicamente relevante para a política nacional, e nesse longa ele atua como um reflexo da disputa pelo poder e da busca por influência dentro do governo. O político sensacionalista é muito bem representado e característico de um passado não tão distante, que quase culminou em uma segunda ditadura militar. O ato de desafiar o direito de Nadi à maternidade simboliza o uso covarde do discurso conservador para conquistar apoio popular.

Placa-Mãe – O2 Play (2023)

É gratificante presenciar a evolução do cinema de animação no Brasil. Igor Bastos conduz essa obra com maestria, entrelaçando uma crítica a um cenário sociopolítico com uma temática futurista e infantil. Além desse contexto, a trama também carrega o peso da dualidade moral enfrentada por Nadi, que precisa decidir entre proteger sua cidadania ou denunciar a fuga de David, uma escolha que revela a complexidade de sua identidade como androide e mãe.

Essa fuga, de uma criança adotada por uma entidade completamente artificial, combina a beleza das paisagens mineiras com o desenrolar de uma aventura frenética e ficcional. O design dos personagens se destaca pela sutileza em transmitir sentimentos profundos através de uma animação simples. O trabalho de dublagem, principalmente das crianças, encaixa perfeitamente e é uma grande prova que até mesmo os pequenos deram coração e alma por esse projeto tão lindo. É notável quando um trabalho é feito com carinho e cuidado, e aqui é inegável o esforço e amor que Igor Bastos e sua equipe colocaram em um longa-metragem tão desafiador e corajoso, seja na temática futurista pouco explorada nacionalmente, na dificuldade de se produzir uma animação no interior com poucos recursos ou até no poder da crítica política que é feita ao longo de seus 105 minutos.

Placa-Mãe – O2 Play (2023)

A animação é uma grande adição ao panorama do cinema brasileiro e usa sua trama de aventura não apenas para entreter, mas para gerar debates sobre os limites da humanidade, os limites das inteligências artificiais e a influência corrosiva das campanhas políticas sensacionalistas e mentirosas. A produção consegue alinhar, em um belíssimo trabalho artístico, a inovação tecnológica com um enredo repleto de sensibilidade, sem perder de vista as características únicas da cultura e paisagem brasileira e, mais especificamente, de Minas Gerais. “Placa Mãe”, por pouco não é a primeira animação do estado, mas consegue aqui uma representatividade para os mineiros jamais vista anteriormente em um filme do gênero.

Em uma ousada exploração de temas contemporâneos, a Espacial Filmes se destaca na indústria cinematográfica e representa o coração do poderoso e às vezes subestimado estado do sudeste brasileiro. Um filme para toda à família, e diferente da maioria das animações atuais, temos aqui a possibilidade de sermos tocados por uma história que, embora futurista, nos representa como brasileiros.

 

Crítica por Pedro Gomes.

 

Placa-Mãe
Brasil, 2023, 105 min.
Direção: Igor Bastos
Roteiro: Igor Bastos
Elenco: Ana Paula Schneider, Vitor Gabriel Pereira, Ana Júlia Silva Guimarães
Produção: Sávio Leite, Lázaro Camilo, Christopher Costa
Edição: Kiko Ferraz, Igor Bastos
Música: Leo Henkin, Kiko Ferraz
Classificação: Livre
Distribuição: O2 Play

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