Crítica – O Quarto ao Lado (La Habitación de al Lado)

“O Quarto ao Lado” contempla a finitude da vida e a beleza do que é efêmero.

O novo filme de Almodóvar aborda um tema recorrente no cinema: pessoas com doenças terminais lidando com a proximidade da morte. Na trama, Ingrid e Martha eram amigas muito próximas na juventude, quando trabalhavam juntas em uma revista. No entanto, a vida as levou por caminhos diferentes: uma seguiu carreira como escritora, enquanto a outra se tornou repórter de guerra. Após anos sem contato, elas se reencontram quando Ingrid descobre que Martha está com câncer em estágio avançado.

Com essa premissa, a trama se desenvolve de maneira delicada e única, destacando a habilidade de Almodóvar em inovar, mesmo em temas já explorados. Martha revela a Ingrid que adquiriu uma eutanásia pela deep web e alugou uma casa isolada no campo, pois deseja escolher o momento e o local de sua morte. Seu último pedido é simples: que Ingrid não tente convencê-la a mudar de ideia ou transforme seus últimos dias em algo grandioso ou memorável. O que Martha quer é que Ingrid apenas a acompanhe, ficando no quarto ao lado, até que ela decida que chegou sua hora. Martha explica ainda que Ingrid nem precisará ser a pessoa a encontrar seu corpo. Ela deixa claro que manterá a porta de seu quarto aberta e que, quando esta se fechar, será o sinal de que ela terá encerrado seu sofrimento. A simplicidade e frieza com que Martha trata sua própria morte reforçam o desejo de controle sobre o fim da vida e a presença de Ingrid se torna tanto um consolo quanto um reflexo das tentativas humanas de lidar com a mortalidade.

La Habitación de al Lado – Warner Bros. Pictures (2024)

Em meio ao clima doloroso e melancólico, Almodóvar adiciona doses sutis de sarcasmo, tornando essa jornada menos desconfortável. O roteiro é afiado, com diálogos poderosos e intimistas, e ao longo da narrativa, o diretor não abandona suas cores marcantes, com vibrantes tons de azul e vermelho, que reafirmam sua assinatura visual. Mesmo com o filme inteiramente em inglês, suas marcas registradas estão presentes, lembrando o espectador de sua identidade cinematográfica.

Além das cores, a estética da obra é completamente característica e contém várias referências ao cineasta sueco Ingmar Bergman, principalmente em filmes como “Persona” e “Gritos e Sussurros”, que também retratam personagens à beira da morte. A fotografia de Eduard Grau contribui consideravelmente para a sensibilidade visual presente no longa, complementando o estilo do diretor. A ilumicação naturalista e a utilização de planos fechados no rosto das personagens intensifica o peso emocional dos diálogos. Alberto Iglesias (colaborador frequente de Almodóvar em filmes como “A Pele que Habito”, “Julieta”, “Fale com Ela”, “Carne Trêmula”, entre outros) traz uma trilha sonora sutil e poética, suavizando momentos de tensão e permitindo que a trama flua de maneira reflexiva e natural.

La Habitación de al Lado – Warner Bros. Pictures (2024)

As atuações de Swinton e Moore são extremamente tocantes, interpretando duas mulheres muito diferentes, mas cuja amizade se transforma diante de uma situação específica. Martha é uma pessoa calma e certa do que deseja, embora esse seu desejo ainda lhe cause dor algumas vezes, e Ingrid é um verdadeiro apoio emocional para sua amiga nesse momento tão difícil. A tentativa de controlar a vida, especialmente o desejo de Martha de escolher o momento de sua morte, reflete a busca humana por autonomia em situações de desespero e é o tema central da obra de Almodóvar. Esse tema é crucial para trazer reflexões não só sobre a vida e a morte, mas também sobre a nossa impotência diante do fim.

Martha busca, em vez de confrontar a morte, momentos de leveza e de felicidade nas pequenas coisas, como assistir a filmes antigos ou contemplar uma pintura. Sua aceitação da mortalidade é capturada de maneira magistral por Tilda Swinton, que equilibra tristeza profunda com uma espécie de paz resignada. Ingrid, por sua vez, mantém uma postura de equilíbrio, evitando entrar em colapso diante da iminência da perda de sua amiga. No entanto, sua proximidade com Martha também a força a refletir sobre sua própria relação com a mortalidade e reavaliar seus conceitos.

Essa dinâmica entre as duas protagonistas não explora grandes cenas dramáticas, mas mantém uma intensidade emocional que cresce à medida que o inevitável fim se aproxima. O filme mostra como ambas reagem à falta de controle sobre suas vidas, encontrando nos pequenos momentos de prazer uma maneira de lidar com a morte, enquanto contemplam a finitude da vida e a beleza do efêmero.

La Habitación de al Lado – Warner Bros. Pictures (2024)

“O Quarto ao Lado” é um filme apaixonante que explora com profundidade a tentativa falha do ser humano de controlar a própria vida. O tema melancólico é retratado com uma sutileza inexplicável, que permite que a obra se torne leve e, ainda assim, seja carregada de reflexões existenciais importantes. A aceitação é o último estágio do luto e é necessária para seguir em frente, compreendendo nossa impotência em relação à vida. Simplesmente poético, tocante e contemplativo.

 

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no Festival do Rio – Rio de Janeiro Int’l Film Festival (2024)

 

O Quarto ao Lado | La Habitación de al Lado
Espanha/Estados Unidos, 2024, 107 min.
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Julianne Moore, Tilda Swinton, Alvise Rigo
Produção: Pedro Almodóvar
Direção de Fotografia: Eduard Grau
Música: Alberto Iglesias
Classificação: 14 anos
Distribuição: Warner Bros. Pictures

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