O retorno aos clássicos investigativos, mas com um olhar moderno e conscientemente disruptivo.
O cinema, enquanto arte múltipla e em constante movimento, está repleto de gêneros narrativos, cujas características se consolidaram ao longo do tempo e na mente do espectador. Dentre tantos, temos as chamadas ficções policiais. Desde o cinema mudo, retratar histórias de crimes, com mistérios, investigações e personagens com personalidades complexas faz parte do imaginário audiovisual. O cinema, enquanto uma mídia relativamente recente, influenciou-se desde os primórdios pela literatura, e dentro dela o gênero policial, trazendo para as telas as tensões e quebra-cabeças já conhecidos através dos livros, quadrinhos e mídias escritas.
Asssitir a filmes policialescos não é, portanto, algo novo. Ao contrário, trata-se de um dos gêneros mais difundidos. Histórias baseadas em grandes nomes da literatura como Sir Arthur Conan Doyle (autor de Sherlock Holmes), Agatha Christie (e seu Detetive Hercule Poirot), e Edgar Allan Poe (considerado o “Pai” do romance policial e criador do Detetive C. Auguste Dupin) foram adaptadas inúmeras vezes para o cinema e servem, até os dias de hoje, como grande influência para novas narrativas. É o caso também Ian Fleming e seu 007, cujos livros foram adaptados para o cinema em uma das franquias mais longas e de maior sucesso.

Tais narrativas audiovisuais são, dentro do gênero em questão, consideradas clássicas, uma vez que seguem uma espécie de receita para o sucesso: vilões complexos, mistérios a serem resolvidos, quebra-cabeças intrigantes, figuras femininas com sensualidade en inteligência e protagonistas com ações, geralmente, dúbias. Além de, via de regra, um bom orçamento. Criar narrativas que façam uso dessas características de gênero, mas que sejam ao mesmo tempo inovadoras pode ser uma espécie de desafio aos cineastas. Trazer algo que esteja dentro do gênero, mas que entregue algo novo, que gere no espectador uma sensação de estar vendo algo familiar e diferente, na mesma medida. Uma primeira tentativa de se conseguir essa inovação aconteceu em meados da década de 1960, na Europa, com os chamados filmes “Eurospy”, ou filmes de espionagem “Spaghetti”, que eram paródias, geralmente de baixo orçamento, de filmes investigativos, em especial os 007. E é com essa estética na cabeça que vemos “O Brilho do Diamante Secreto”, filme dos cineastas belgas Hélène Cattet e Bruno Forzani e que chega agora ao Brasil.
Em “O Brilho do Diamante Secreto”, acompanhamos um fragmento da vida de John D. (Fábio Testi), um ex agente secreto na faixa dos 70 anos, que vive na Riviera Francesa e se vê de volta às memórias de sua juventude quando sua vizinha de quarto desaparece misteriosamente. Associando eventos do passado e os acontecimentos do presente, o filme cria um caleidoscópio no tempo, em que realidade, memória e loucura se misturam, criando uma narrativa não-linear e repleta de liberdades criativas. A estética do filme remonta aos clássicos investigativos, mas principalmente aos filmes “Eurospy”. O uso de cores muito saturadas, montagens com cortes secos e sobreposições de imagens, além de elementos gráficos cheios de referências às histórias em quadrinhos investigativas popularizadas na Itália na década de 1960, chamadas “fumetti neri”, cujas obras mais famosas foram “Diabolik” e as sucessoras “Kriminal” e “Satanik”. A suposta vilã no filme em pauta é “Serpentik”, uma mulher extremamente inteligente e ardilosa, cujo rosto ninguém conhece. Seu lado sombrio e violento, além do nome, faz referência direta aos quadrinhos da época.

Apesar das referências bastante evidentes, o filme difere na abordagem narrativa. Se os clássicos e paródias optam por uma narrativa linear, “O Brilho do Diamante Secreto” foge categoricamente disso. Não há, aqui, uma linha de raciocínio que ligue A, necessariamente, a B. Há, ao contrário, uma abordagem mais livre, com flashbacks e idas e vindas no tempo, que coexistem imaginação e memória. Não dá para saber, dentro da diegese do filme, onde se pauta a realidade e onde se faz ficção. Há múltiplas formas de se entendê-lo e interpretá-lo, todas elas, contudo, se guiando pela experiência sensorial do protagonista.
Pode-se, portanto, dizer que se trata de um Filme-sensação, em que o sentimento guia mais do que a razão e o raciocínio lógico. Temos, ao assisti-lo, uma experiência mais sensorial (visual, emotiva) do que racional. E, ao que tudo indica, é o que os diretores esperam de nós. Não se busca um filme que traga respostas para seus questionamentos, mas sim a vivência dos mesmos. Experimental, dir-se-ia do filme? Sim, no sentido mais cru da palavra. Ainda assim, de maneira consciente e com domínio da linguagem policial, das referências do gênero e de como usar delas para se criar algo com o frescor da novidade.
Crítica por Bianca Rolff.

O Brilho do Diamante Secreto | Reflet Dans Un Diamant Mort
Bélgica/França/Itália/Luxemburgo, 2025, 87 min.
Direção: Hélène Cattet, Bruno Forzani
Roteiro: Hélène Cattet, Bruno Forzani
Elenco: Fabio Testi, Yannick Renier, Koen De Bouw
Produção: Gilles Chanial, Pierre Foulon, François Cognard
Direção de Fotografia: Manuel Dacosse
Som: Olivier Thys, Martin Tricoire, Daniel Bruylandt
Classificação: 16 Anos
Distribuição: Pandora Filmes










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