Crítica – Milton Bituca Nascimento

A Imortalidade sobrepondo-se à despedida.

A fissura com o eco vem desde criança. O ecoar dos sons, das vozes pelos espaços, como gritos em uma caverna. É através do ecoar da vida em seu entorno que vemos Milton Bituca Nacimento. Mineiro do Rio de Janeiro, uma das maiores referências mundiais no âmbito da música. Em seu documentário “Bituca – Milton Nascimento”, Flávia Moraes nos faz parte da comitiva que o acompanha em sua turnê de despedida ao redor do mundo. E assim, somos embalados por um conto repleto de magia…

A turnê, por si, já diz de sua magnitude. Perpassar continentes, com inúmeros shows, levando sua voz e sua melodia aos 80 anos de idade deveria, por si, ser sinônimo de grandeza. Mas não é isso que torna Milton o que ele é. É justamente a sua simplicidade em contraste com todo resto.

Poucos são aqueles que podem se dar ao luxo de serem adorados em todos os gêneros. No caso de Milton, é assim. Idolatrado pelos maiores nomes do jazz, mesmo sem ser jazzista. Exaltados pelos maiores músicos do rock, do rap, do pop, da MPB, sem que sua música possa ser enquadrada apenas em uma única categoria. Milton é, mesmo, assim: múltiplo e totalmente único.

Milton Bituca Nascimento – Gullane (2025)

Assistir ao documentário é como estar em uma aula de história viva. Perceber a presença e a importância de alguém que só queria ser livre e, vivendo sua liberdade, ser capaz de influenciar a música de gerações passadas, presentes e futuras. É ser testemunha de uma trajetória que não foi reconhecida pos mortem, mas durante a sua fruição.

Dar conta de abordar toda uma vida não é uma tarefa fácil. É preciso podar, escolher pontos de vista, desistir de abordagens, tomar decisões. E ao que consta, tudo parece essencial e totalmente necessário. Cada depoimento, cada palavra, cada momento retratado. Mais do que isso, as próprias palavras de Milton – que obviamente também é personagem vivo de sua própria narrativa áudio (acima de tudo)- visual.

“O que é uma despedida, diante da imortalidade?”

São estas as palavras de Fernanda Montenegro ao dar voz à narração do filme. E, de fato, ser imortal é deixar legado. É transmitir emoções e sentimentos através de composições sonoras cuja profundidade está além da explicação em palavras. É preciso sentir. Fechar os olhos e apenas se deixar embalar.

Milton Bituca Nascimento – Gullane (2025)

Milton merece o reconhecimento que tem. Milton merece o respeito que emana. Mais do que tudo, ele merece ver e ouvir a si mesmo e aos tantos que dele fruem.

Se Bituca é seu apelido dado ao fato de que fazia bico ao ser contrariado, Nascimento é seu sobrenome por destino. A música (re)nasce consigo a cada nova composição e ecoa pelos poros do mundo a cada novo tocar.

E a quem tem sensibilidade para perceber a grandeza de Milton nas pequenas coisas: é uma questão de sorte compartilhar o mesmo espaço-tempo que ele.

 

Crítica por Bianca Rolff.

 

Milton Bituca Nascimento
Brasil, 2025, 110 min.
Direção: Flávia Moraes
Roteiro: Marcelo Ferla, Flávia Moraes
Elenco: Milton Nascimento
Classificação: 10 anos
Distribuição: Gullane

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