Crítica | Meio-dia [21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto]

Um espelho do autoritarismo e da opressão.

Lançado em 1969 e dirigido por Helena Solberg, Meio-dia é um curta-metragem de aproximadamente 10 minutos que transforma um espaço cotidiano (uma sala de aula) em um espaço de confronto político e simbólico. A trama acompanha um grupo de crianças que se rebela contra o professor, ameaçando matá-lo, em uma clara metáfora sobre a repressão vivida pelo Brasil durante a ditadura militar. A obra ganha ainda mais força quando utiliza a música “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso, reforçando sua postura de resistência artística.

O que mais impressiona é a capacidade de Helena em condensar uma história tão poderosa em apenas 10 minutos. O curta evita o didatismo e constrói sua trama através de gestos, imagens e tensões.

A rebelião das crianças não é um simples gesto de indisciplina, mas sim uma representação de uma sociedade sufocada pela autoridade e pelo medo. Ao escolher crianças como protagonistas, temos um contraste entre violência e inocência que torna essa crítica ainda mais desconfortável.

A sala de aula funciona como uma representação do país, onde o professor representa a autoridade absoluta, e os alunos, uma sociedade que não aguenta mais ficar em silêncio. A escola deveria funcionar como um espaço de aprendizado, e é transformada em um cenário onde o poder é colocado à prova, como um espelho dos conflitos políticos que acontecem fora daqueles muros.

A escolha da fotografia em preto e branco contribui significativamente para a atmosfera do filme. A ausência de cores enfatiza as expressões dos personagens e traz um tom mais sombrio, eliminando quaisquer distrações.

Meio-dia (21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto | Imagem: Reprodução: Cinemateca Brasileira

É inegável a maestria de Helena em conduzir seus documentários, e por mais que essa obra seja de ficção, a linguagem visual é direta e crua, aproximando o espectador da sensação de estar presenciando um acontecimento real. A violência é escalada de forma rápida, situações aparentemente comuns evoluem a um cenário extremo, dando a sensação de que essas sociedades marcadas pelo autoritarismo estão sempre à beira do colapso.

A trilha sonora, marcada com a música de Caetano, faz com que o filme dialogue diretamente com movimentos de resistência artística, que utilizavam a criatividade para combater a censura.

Mesmo tendo quase 50 anos, o curta permanece atual pois vai além da ditadura, sendo um espelho de qualquer repressão autoritária e opressora. Isso permite que a obra seja constantemente reinterpretada em diferentes gerações. O filme é um exemplo de como o cinema pode ser uma ferramenta política sem depender de grandes orçamentos ou explicações. Helena traz uma narrativa simples e carregada de simbolismo para transformar um conflito escolar em uma alegoria sobre um país submetido ao controle. Como resultado, temos uma das obras mais marcantes do cinema novo brasileiro.

 

Crítica por Pedro Gomes

Filme assistido na 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto

 

 

Meio-dia
Brasil, 1969, 9min.
Direção: Helena Solberg
Roteiro: Helena Solberg
Elenco: João Farkas
Produção: Helena Solberg
Direção de Fotografia: José Marreco
Música: Caetano Veloso

Distribuição: Radiante Filmes

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