Sensual, ousado, selvagem e emocionante.
Biografias sempre representam um risco para quem as produz. Nos últimos anos, muitas cinebiografias chegaram aos cinemas, e a chance de Homem com H ser apenas mais uma era grande. Felizmente, estamos diante de um filme que consegue emocionar, divertir e elevar o cinema brasileiro ao seu melhor. Dono de uma voz inconfundível e de performances memoráveis, Ney Matogrosso morava com os pais e irmãos na pequena cidade de Bela Vista (MS). Os embates com o pai, que insistia para que o menino “virasse homem”, levaram Ney a se afastar da família antes de mergulhar de vez na vida artística. Anos depois de sair de casa, em São Paulo, estreou como vocalista dos Secos e Molhados, dando início às apresentações históricas que o consagrariam como um dos maiores artistas do Brasil.
O filme é uma excelente porta de entrada para quem ainda não conhece sua trajetória e, ao mesmo tempo, um presente para os fãs e para todas as pessoas que, assim como ele, lutaram (e ainda lutam) pela liberdade de ser quem são. Ney foi e continua sendo uma figura revolucionária, tanto para a arte quanto para a representação da luta por liberdade e pela selvageria que nos constitui como seres humanos.
Homem com H – Paris Filmes (2025)
A narrativa retrata com sensibilidade e precisão os conflitos internos e externos enfrentados por Ney desde a juventude. A relação tensa com o pai, marcada por imposições autoritárias e por uma masculinidade opressora, é mostrada de maneira crua, dolorosa e cruel. O filme não suaviza o peso emocional de uma infância moldada pela repressão, nem os efeitos disso na construção da identidade do protagonista.
Mais do que um retrato de resistência, Homem com H é um manifesto de libertação. Ney Matogrosso jamais se encaixou nos moldes esperados pela sociedade, e fazia questão de marcar sua trajetória com uma recusa incessante em se submeter a qualquer forma de normatividade. Sua alma, seu corpo, sua voz. Tudo dentro dele gritava por liberdade. O filme nos lembra a todo momento da importância de existir verdadeiramente, sem máscaras, em um mundo que insiste em nos moldar.

A atuação de Jesuíta Barbosa é o maior triunfo da obra. Ele entrega uma interpretação viva, pulsante, e não apenas “imita” Ney: Ele o compreende, absorve seus gestos, seu ritmo, sua respiração e sua forma de ser. Sua entrega emocional e física ao papel é comovente e traz um realismo poético que sustenta o filme do início ao fim.
A fotografia e a montagem acompanham esse esforço de forma igualmente inspirada. A câmera se aproxima com intimidade nos momentos de vulnerabilidade e se expande com grandiosidade nas performances, capturando tanto a dor silenciosa quanto o brilho exuberante de Ney. Essa construção visual respeita e potencializa a força simbólica da figura retratada. Ney Matogrosso é uma lenda, e o filme honra isso.

Homem com H não é apenas uma biografia — é uma celebração da ousadia, da arte e da liberdade. É um lembrete potente de que ser diferente é uma forma de resistência e que viver com coragem, apesar dos obstáculos, é um ato revolucionário. Ney Matogrosso não cabe em moldes, e o filme, felizmente, também não. Ele brilha com a mesma intensidade do artista que homenageia. Uma das melhores e mais emocionantes cinebiografias de todos os tempos.
Crítica por Pedro Gomes.

Homem com H
Brasil, 2025, 130 min.
Direção: Esmir Filho
Roteiro: Esmir Filho
Elenco: Jesuíta Barbosa, Jullio Reis, Hermila Guedes
Produção: Patricia Galucci, Mariana Marcondes, Adrien Muselet
Direção de Fotografia: Azul Serra
Música: Mariana Amabis
Classificação: 16 anos
Distribuição: Paris Filmes











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