Hanami e a infância como forma de existir
A contemplação da vida em sua paradoxal simplicidade e complexidade é um ato que nem sempre faz parte do nosso cotidiano. Abarrotados como estamos sempre com mil e uma atividades, trabalhos e metas, por vezes nos esquecemos que, independentemente de qualquer coisa, a vida acontece. E esse acontecer está diretamente relacionado a suavizar o nosso fluxo de energia e apreciar o tempo.
A forma com que Hanami, filme de Denise Fernandes, se apresenta para nós tem muito a ver com isso. Somos colocados frente à história de vida de Nana, uma criança que se vê criada por mulheres em Cabo Verde, sem a presença da mãe, cuja imigração para a Europa acontece antes mesmo de Nana entender qualquer coisa sobre si ou o mundo em que vive. Nana convive diariamente com o universo particular de uma ilha, marcada pela presença marcante de um vulcão e toda uma atmosfera de vida regada a um tempo distinto do tempo ocidental, pautado em uma visão de mundo em que o “agora” se torna muito mais importante do que o futuro que nem mesmo se compreende.

Ver as nuances boas e ruins da vida através do olhar lúdico e puro de uma criança é o que torna Hanami um filme tão bonito. Não há uma compreensão da realidade com base em uma visão adulta ou social, mas através dos olhos e sentimentos (por vezes até incompreendidos) de uma criança, que vive longe de sua mãe e busca entender o seu lugar no mundo, não apenas um lugar enquanto “Ser Humano”, mas entender o que é este lugar físico em que ela vive, a sua ilha, com todas as particularidades que possui.
Aqui, observamos os acontecimentos sem uma ordem dos fatos necessariamente linear. Personagens aparecem e desaparecem em um piscar de olhos, situações não se explicam de maneira objetiva, nem mesmo observamos o mundo de maneira inteiramente racional. É como se Nana nos passasse um pouco de sua ingenuidade e verdade ao encarar os momentos de sua vida, em uma busca por entendimento de algo que nem mesmo ela sabe dizer o que é.

O filme, em um momento mais no futuro, cresce Nana, tornando-a uma adolescente observadora, mas mais consciente da vida e do que ela geralmente exige das pessoas. Mesmo vivendo em um lugar díspar do modelo europeu de civilização, Nana passa a exercer funções sociais mais próximas ao que estamos acostumados. Ainda assim, ela mantém uma pureza, próxima à pureza dos animais que apenas vivem, sem conjecturar sobre as necessidades do mundo. A forma com que Nana se relaciona com as pessoas também parece “fora do ar”. Não há uma exteriorização dos sentimentos e das reações conforme esperaríamos em situações de profundidade emocional semelhante. Nana parece flutuar diante do mundo, ao mesmo tempo imersa e imune a ele.
Assim como os ciclos da natureza, Nana desacelera, observa o mundo mais do que se percebe observada, vive como se nada mais importasse senão o agora. Talvez porque, para ela, seja mesmo a única compreensão de tempo que verdadeiramente importa.
Crítica por Bianca Rolff.
Hanami
Cabo Verde, 2025, 96min.
Direção: Denise Fernandes
Roteiro: Denise Fernandes, Telmo Churro
Elenco: Sanaya Andrade, Daílma Mendes, Alice Da Luz Gomes
Produção: Sandro Aguilar, Eugenia Mumenthaler, Luís Urbano
Direção de Fotografia: Alana Mejía González
Música: Rahel Zimmermann
Classificação: Livre
Distribuição: Imovision












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