Crítica – Golpe de Sorte em Paris (Coup de Chance)

O acaso da vida em suas distintas possibilidades.

É notória a paixão de Woody Allen por sua cidade natal, Nova York. Mas a cada novo filme em sua “Era” no velho continente, parece que Woody nasceu para o bucolismo e charme europeus.

Golpe de Sorte em Paris (Coup de Chance, no original), seu mais recente lançamento (e o 50º filme de sua longa e premiada carreira) nos faz caminhar por uma Paris saída de uma galeria de arte. Acompanhando o reencontro de dois jovens e as consequências dessa reaproximação, somos levados ao desenrolar narrativo como se Paris fosse íntima, uma velha e querida conhecida nossa.

Coup de Chance – O2 Play Filmes (2023)

Nesse filme, conhecemos Fanny (Lou de Laâge), uma linda e culta jovem francesa que trabalha no ramo da venda de artes e que parece possuir a vida dos sonhos: mora em um bairro nobre da capital, é bela e casada com Jean (Melvil Poupaud), um homem sedutor, misterioso e bem-sucedido. Sua vida toma novos rumos quando ela reencontra Alain (Niels Schneider), um antigo colega de faculdade, escritor, belo e sonhador. Já no primeiro contato Alain diz de sua paixão por Fanny, paixão esta que existe desde os anos em que estudaram juntos. Esse reencontro surpresa reacende nele a esperança de finalmente conquistá-la, dando a Fanny um novo olhar para a sua vida e os rumos de seu relacionamento com Jean. Em pouco tempo, eles percebem que vale a pena tentar a sorte na cidade do amor, ainda que de forma furtiva e secreta.

Coup de Chance – O2 Play Filmes (2023)

De início, uma das características que mais chamam a atenção neste filme é que ele é, com enorme certeza, um “filme de ator”. Com cenas longas e diálogos que correm naturais através de planos grandes e sequenciais, o elenco nos proporciona uma experiência que beira à sensação única que o Teatro consegue nos dar: a do fluxo contínuo de atuação. Há aqui, uma junção da técnica cinematográfica em função da técnica de performance. Os planos em sua maioria de tempo estendido trabalham a favorecer os atores (protagonistas e coadjuvantes, todos escolhidos a dedo) e os locais em que se encontram. As situações se desenrolam por cenários exuberantes de Paris e arredores, com uma predominância consciente de tons outonais e aconchegantes, que criam uma aura de calor em torno desse casal que redescobre o amor. E se falamos que Paris parece saída de uma exibição de artes, o filme parece jogar o tempo todo com pequenas referências artísticas, como o fato de Lou de Laâge, atriz que interpreta Fanny, em muito lembrar Anna Karina, musa de Godard. E ao lembrar de Godard, o filme também nos remete à atmosfera livre e misteriosa de Acossado, seu primeiro filme e obra que marca até hoje o modo como o cinema francês se desenvolveu e se tornou referência para as criações autorais.

Coup de Chance – O2 Play Filmes (2023)

Mas Golpe de Sorte em Paris não é apenas um romance fofo. É também, para a surpresa e apreciação do espectador, um thriller cheio de reviravoltas. Como dito, acompanhamos o casal protagonista em seu reencontro e as consequências dessa escolha. Aqui, Allen nos mostra que a sua visão da vida como grandes acasos pode, ao mesmo tempo, ser usada para criar um suspense investigativo com toques cômicos e de muita elegância. Somos levados a um desenrolar narrativo cheio de pontos de virada, o que torna a obra de Allen um prato cheio para apreciadores de gêneros distintos. E com um bônus: Tudo embalado pelo bom e nada velho Jazz.

 

Crítica por Bianca Rolff.

 

Golpe de Sorte em Paris | Coup de Chance
França/Estados Unidos/Reino Unido, 2023, 96 min.
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Lou de Laâge, Valérie Lemercier, Melvil Poupaud
Produção: Letty Aronson
Direção de Fotografia: Vittorio Storaro
Som: Jean-Marie Blondel
Classificação: 12 anos
Distribuição: O2 Play Filmes

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