Sem sal e sem tempeiro, continuação não está à altura da obra original.
“Estômago” foi um filme que chocou o Brasil e o mundo em 2008 com sua criatividade, autenticidade e, é claro, cenas e personagens completamente memoráveis. Fez história ao conquistar diversos prêmios em festivais nacionais e internacionais, e essa sequência é, sem dúvida, um dos lançamentos mais aguardados pelo público que se encantou 16 anos atrás. No entanto, nesta continuação, Raimundo Nonato perde todo o seu protagonismo para a máfia italiana. A trama gira em torno de um conflito entre o chefe do crime Etcétera e o mafioso italiano Dom Caroglio, que chega para disputar o controle da penitenciária e o privilégio de ser servido pelo carismático cozinheiro, que acaba ficando em segundo plano nesse embate de interesses.
A tentativa de repetir as fórmulas que funcionaram anteriormente é extremamente fraca e sem originalidade. Algumas cenas icônicas, como a de Iria comendo macarrão durante um ato sexual intenso, são repetidas aqui com outra personagem, revelando a falta de criatividade que permeia esta sequência. O tempo todo, temos a sensação de estar vendo uma cópia de várias cenas do primeiro filme em uma trama diferente.

O longa parece promissor num primeiro momento, com um início impactante que nos lembra do que viemos assistir. Porém, a partir do momento em que Caroglio entra em cena, o filme desaba completamente. A maior parte dos diálogos é em italiano, o que já é uma diferença gritante em comparação à obra de 2008. Para surpresa de todos, Raimundo Nonato deixa de ser o protagonista e se torna um personagem secundário com pouquíssimo tempo de tela, sem que o roteiro lhe dê a devida importância.
Além dos conflitos na prisão, somos apresentados a uma nova personagem: Valentina, o grande amor de Caroglio. O romance entre os dois não tem nenhuma conexão com Alecrim ou o primeiro filme (o que chega a ser indigesto), mas ocupa grande parte das duas horas e dez minutos de duração de “Estômago 2”.

“Deus dá a carne. O diabo, o cozinheiro.”
A narrativa acaba sendo extremamente repetitiva e pouco inovadora, o que faz com que sua duração não seja bem aproveitada. Tudo soa forçado, e passamos grande parte do filme esperando o retorno do nosso idioma ou a aparição de Alecrim. Mas isso não acontece com a frequência que gostaríamos. A impressão que o espectador tem é que é difícil se envolver na trama, pois estamos tão ansiosos para reviver os sentimentos que ecoaram anos atrás, que, quando menos esperamos, os créditos sobem, sem entregar o que precisávamos. Os personagens, incluindo os novos, têm pouca ou nenhuma profundidade, e são carregados de estereótipos e clichês desnecessários.

Infelizmente, “Estômago 2: O Poderoso Chef” não honra o original, nem parece fazer parte do mesmo universo. A experiência não é tão boa quanto se espera, mas as atuações, apesar de não serem bem exploradas pelo roteiro e pela má construção dos personagens, são bastante convincentes. Os poucos minutos de tela em que somos encantados pela presença do querido Alecrim valem a pena, mas o macarrão, dessa vez, passou do ponto.

Estômago 2: O Poderoso Chef
Brasil/Itália, 2024, 130 min.
Direção: Marcos Jorge
Roteiro: Marcos Jorge, Lusa Silvestre, Bernardo Rennó
Elenco: João Miguel, Nicola Siri, Paulo Miklos
Produção: Cláudia da Natividade, Francesco De Blasi
Direção de Fotografia: Kauê Zilli, Maura Morales Bergmann
Música: Giovanni Venosta
Classificação: 18 anos
Distribuição: Paris Filmes










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