Uma obra-prima sobre a dor de seguir em frente
É raro encontrar uma animação que consiga equilibrar com tanta maestria a grandiosidade de uma aventura fantástica com a delicadeza de um drama humano profundo. Dirigido por Yusuke Hirota e nascido da imaginação de Akihiro Nishino, o que poderia ser uma simples continuação da bela fantasia “Poupelle of Chimney Town” é uma expansão madura e emocionalmente marcante de um universo que já era especial. Nele, testemunhamos Lubicchi, ainda carregando o peso da ausência de Poupelle, sendo lançado para Millennium Fortress, uma cidade onde o tempo parou exatamente às 11h59. Para voltar para casa, ele precisa entender o segredo daquele lugar e restaurar o relógio que permanece congelado.
A grande sacada narrativa do filme é sua estrutura em dois fios que se entrelaçam com uma beleza comovente. Enquanto Lubicchi busca uma forma de voltar para casa, descobrimos a história do guardião do relógio, um homem que há cem anos espera pela amada que perdeu em um incêndio. Eles haviam combinado de se encontrar à meia-noite, mas o destino cruel os separou antes. Desde então, o relógio parou como se sentisse que, quando desse meia-noite, ele teria que encarar a verdade de que ela se foi. É uma premissa de uma tristeza pura e universal, e o filme a conduz com uma sensibilidade que jamais cai no melodrama. Em vez disso, nos convida a habitar a dor daquele homem, a sentir com ele o peso de cada segundo que não passa, assim como a dor do protagonista de seguir sua jornada sem o amigo Poupelle.

Visualmente, a obra é impressionante. Os cenários e a ambientação criam uma textura única que remete à uma fábula oriental steampunk. Há uma riqueza que recompensa o espectador e transforma a experiência de assistir ao filme em algo quase tátil, como se mergulhássemos em um universo do qual não queremos mais sair.
Mas o que realmente eleva Chimney Town: Frozen in Time a um patamar superior é o modo como ele utiliza sua fantasia para falar sobre o luto. A recusa inconsciente do guardião em deixar o relógio avançar é uma metáfora brilhante para aqueles momentos da vida em que ficamos paralisados, esperando que algo ou alguém que perdemos possa magicamente retornar. É um retrato honesto e comovente de como a memória pode se tornar uma prisão. Em vez de apresentar o luto como algo que precisa ser superado, ele o encara como uma companhia silenciosa que aprendemos a carregar. A dor permanece, mas ela deixa de definir quem somos. Quem nunca quis prolongar um último abraço, adiar uma despedida ou permanecer por mais alguns instantes em um momento feliz?

Outro acerto gigantesco do filme é como ele dialoga com o primeiro filme sem nunca se apoiar preguiçosamente na nostalgia. A ausência de Poupelle é sentida, sim, mas não como um vazio narrativo. Ela traz uma ferida que Lubicchi carrega consigo, e que o torna mais humano. O filme entende que o crescimento vem da dor, e não apesar dela. E ao trazer o guardião do relógio como um espelho do próprio protagonista, a história nos mostra que todos nós, em algum momento, nos tornamos guardiões das nossas próprias saudades.
Mas, por mais que fale sobre perda, o longa nunca se torna derrotista. Existe uma camada de esperança que atravessa toda a narrativa e que ganha força na revelação envolvendo a amada do guardião. Durante um século, sua espera parece um gesto trágico, quase impossível de justificar. No entanto, o filme escolhe enxergar a esperança não como ingenuidade, mas como uma força capaz de desafiar até mesmo o tempo. É uma decisão narrativa arriscada, mas que funciona justamente porque não invalida a dor vivida por aquele personagem. Em um mundo cada vez mais cínico, há algo profundamente bonito em uma história que ainda acredita no poder da esperança.

No fim das contas, Chimney Town: Frozen in Time é uma experiência cinematográfica rara, daquelas que nos fazem sair da sala com um sentimento de acolhimento. Ele nos lembra que a fantasia é, muitas vezes, a forma mais honesta de falar sobre a realidade. A história entrelaça passado e presente com uma elegância comovente, e juntamente com a trilha sonora o filme se consagra como uma joia do cinema japonês contemporâneo. É um lembrete necessário de que, por mais que a dor nos imobilize e o tempo pareça parar, a esperança tem o poder de colocar o mundo em movimento novamente. Em um movimento lindo.
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido no Annecy International Animation Film Festival 2026 (Annecy Presents)
Chimney Town: Frozen in Time | 映画 えんとつ町のプペル 〜約束の時計台〜
Japão, 2026, 98min.
Direção: Yusuke Hirota
Roteiro: Akihiro Nishino
Elenco: Masataka Kubota, Mana Ashida, Yuzuna Nagase
Produção: Eiko Tanaka, Ryoichi Fukuyama
Edição: Kiyoshi Hirose
Música: Harumi Fuuki
Classificação: Não Definida












Leave a Reply