Um grito contra a erosão da memória e a violência de um sistema que tenta apagar o a verdade.
58th conta a história real do Massacre de Maguindanao, ocorrido em 23 de novembro de 2009, nas Filipinas. Este foi o evento mais letal para profissionais de mídia na, onde 58 pessoas foram assassinadas, incluindo 32 jornalistas e trabalhadores de imprensa. Das 58 pessoas, apenas 57 corpos foram encontrados. A trama segue a luta de Reynafe, filha do fotojornalista do qual o corpo nunca foi encontrado, para que seu pai seja oficialmente reconhecido como vítima do massacre.
A busca por justiça e a luta para honrar a memória do pai, após a brutalidade do atentado, transcendem a tela com uma força comovente. A abordagem intimista e desafiadora do documentário nos aproxima de forma visceral da protagonista, fazendo com que sua dor e sua resiliência ressoem profundamente em nós, como se compartilhássemos de sua intimidade e fôssemos levados a uma profunda empatia.

Ao invés de um simples registro histórico, o filme transforma-se em um ato de resistência contra o esquecimento, usando a animação em rotoscopia para dramatizar as memórias da filha e dar corpo a um luto que o Estado se recusa a legitimar. A ausência de um corpo e de um registro oficial não é apenas uma lacuna na história: é uma ferida que não cicatriza, uma ofensa à memória de um ser humano cuja vida foi brutalmente ceifada.

Carl Joseph Papa já havia demonstrado seu trabalho com rotoscopia em Iti Mapukpukaw, e diferente da animação tradicional (que constrói mundos inteiros a partir do zero) a rotoscopia parte de expressões faciais e dos movimentos capturados pelos atores para então transformá-los em traços desenhados quadro a quadro. Essa dualidade entre o concreto e o pictórico confere ao filme uma estranheza fascinante, como se estivéssemos diante de uma memória sendo reconstruída. Isso torna a dor da protagonista mais palpável, mais próxima, como se o próprio luto estivesse sendo esboçado diante de nossos olhos.
O filme não apenas informa sobre o massacre, ele nos convida a sentir o peso da espera, a angústia de não ter o que enterrar e a indignação diante de uma justiça que se mostra insuficiente. Em uma estrutura praticamente narrativa, o documentário choca com a dor de uma filha lutando contra a erosão da memória de seu pai.

Ao transformar a dor de Reynafe em obra audiovisual, o filme nos lembra que a memória é um ato político e que, mesmo diante da brutalidade do silêncio oficial, reivindicar a existência de uma vítima é, por si só, uma forma de resistência. ’58th’ insiste em não deixar que aquela ausência se torne apenas mais uma estatística.
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido no Annecy International Animation Film Festival 2026 (Official Selection)

58th
Filipinas, 2026, 86min.
Direção: Carl Joseph E. Papa
Roteiro: Aica Ganhinhin, Carl Joseph E. Papa
Elenco: Glaiza de Castro, Ricky Davao, Mikoy Morales
Produção: Nessa Valdellon
Direção de Fotografia: Jethro Jamon
Música: Claudia Sarne
Classificação: Não definida.












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