Na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o ator Daniel Victor fala sobre o processo de construção de Último Episódio e a relação intensa que se formou em pouco tempo com Tatiane e Matheus durante as gravações do filme. Mesmo com um período curto de convivência antes do início das filmagens, o trio desenvolveu uma química tão forte que muitos espectadores acreditam se tratar de uma amizade de longa data.
Ao longo da conversa, Daniel Victor reflete sobre a complexidade de seu personagem, Cassinho, um menino de múltiplas camadas que se recusa a ser reduzido a estereótipos. A entrevista também atravessa questões pessoais e políticas, especialmente no que diz respeito à identidade.
A seguir, você confere a entrevista completa.
Pedro Gomes: O filme mostra bem a relação de você com a Tatiane e com o Matheus. Queria saber como que foi gravar esse filme com eles, se vocês ficaram amigos no meio da gravação.
Daniel Victor: É, foi um processo bem engraçado, porque a gente teve muito pouco tempo pra se conhecer. Eu não lembro direitinho quanto que foi, quanto mais ou menos que a gente ficou junto antes de começar a rodar o filme. Se eu não me engano foi ali umas semanas assim, acho que não chegou nem a um mês. Então é muito pouco tempo pra você conhecer uma pessoa direito, você criar uma certa intimidade, principalmente num filme que envolve tanta química, né? É, mas aí a gente começou a brincar com o processo meio de um encantamento assim, que a gente teve muito natural, porque a gente pegou uma química de uma forma muito intensa e muito rápido. E eu acho que isso fica muito nítido assim no filme, né? As pessoas inclusive achavam que a gente já era amigo há muito tempo e quando a gente conta que não, a gente conheceu quase que na mesma época, as pessoas ficam bem, bem chocadas. Eu também, confesso.

Pedro Gomes: Seu personagem é um cara de muitas camadas, de uma personalidade muito forte. O que da sua vida pessoal você trouxe pra interpretar ele e o que esse personagem te ensinou durante as gravações?
Daniel Victor: Nossa gente, muita coisa, né? Eu acho que teve coisas que eu trouxe dele de mim pra ele. Eu acho que na época, embora eu não ache que o Cassinho seja inocente em nada, até acho que seria um erro eu colocar ele dentro dessa caixa de inocente, que eu acho que aí eu estaria estereotipando ele um pouco, né? Aquela coisa do personagem meio… meio meio idiotinha que não sabe muitas coisas. Eu acho que ele é muito o oposto disso, mas eu acho que ele tem uma forma um pouco… É, eu acho que ele poetiza tudo o que ele vê, de uma certa forma, e eu acho que isso vem da relação dele com a música e com a arte em geral. E é uma coisa que eu sempre tive muito, então, desde pequenininho, eu acho que eu tinha um pouco essa coisa de não gostar de ver nada da forma crua como é, sabe? Acho que tudo eu sempre quis colocar um pouquinho de coisinha, um pouquinho de música, um pouquinho do que quer que fosse envolvendo a arte para deixar a vida um pouco mais fácil, né? Acho que a gente precisa de fazer isso. Eu acho que o Cassinho também. Mas tem coisas que eu aprendi com ele e aí eu acho que tem uma relação muito forte com o fato de ser uma pessoa negra. Então eu acho que a minha relação com o meu cabelo mudou muito depois que eu fiz o personagem. Eu nunca tinha usado o meu cabelo sem os cachos, tipo, o cabelo aberto. E depois que eu fiz ele, não vou dar spoiler, mas existe um momento ali, muito importante na vida dele durante o filme e isso me aconteceu num dia andando assim na rua e eu percebi que eu queria começar a usar o meu cabelo também daquela forma. E é isso, começar a ver não só como uma uma coisa fantasia, que é o que a gente normalmente vê sendo usado no Brasil, um cabelo crespo, mas também como uma coisa bonita, uma coisa linda que parece uma coroa, parece uma juba e fazer disso a minha força, como eu acho que também é pra ele, de certa forma.
Pedro Gomes: E uma última pergunta sobre o personagem, ele é muito talentoso, ele tem vários talentos que são mostrados durante o filme. Qual talento você acha que ele tem que não foi mostrado nesse filme?
Daniel Victor: Nossa, muito difícil. cantar. Acho que o Cassim é um bom, é um ótimo cantor. Juro, eu acho mesmo que ele é um ótimo cantor, embora o filme deixe claro, né? Que ele é um músico muito… Muito, muito bom, né? Mas eu acho que a voz assim a gente normalmente não imagina, né? Eu acho que ele é um bom cantor e eu acho que ele sabe jogar xadrez também. Eu acho que é uma coisa interessante.
Pedro Gomes: O excesso de telas atualmente nas crianças impacta muito na falta de criatividade delas. Como que você vê esse impacto para a criação de novos artistas?
Daniel Victor: Olha, falando de uma forma bem leiga, eu acho que, falando enquanto artista e não como uma pessoa que tem um conhecimento dos reais impactos que isso causa em alguém, eu acho que a arte é um processo que, na sua grande maioria, é muito solitário. E eu acho que a arte, a maior parte das coisas que nascem nesse processo criativo, elas vêm de um processo muito calado, muito quieto, é um processo muito subjetivo. O excesso de telas, ele coloca um limite nisso, porque ele te expõe muito a tudo e a todo mundo o tempo inteiro. Ele te expõe a coisa demais, sabe? E aí eu acho que a gente sente uma espécie de dificuldade de organizar isso e depois criar alguma coisa que seja sólida e concreta, e não só criar um monte de coisa, enfim. É um dos problemas, né, que tem acontecido na arte, eu acredito, que é uma hiperprodução de muitas coisas que às vezes não têm realmente uma certa profundidade ou tratam assuntos do cotidiano de uma forma meio leviana, talvez se essas pessoas tivessem essa oportunidade de produzir de um jeito mais solitário, seria uma coisa mais legal, mais bonita.












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