Cineclube Vi nos Filmes

Dois Bois

Após passar toda a infância e juventude apartada de sua família, Joana retorna ao pantanal para cumprir o último desejo de sua recém falecida mãe.

Brasil, 2022. Direção: Perseu Azul.

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Entrevista com Perseu Azul

Crítica

Após passar toda a infância e juventude apartada de sua família, Joana retorna ao pantanal para cumprir o último desejo de sua recém falecida mãe.

“Dois Bois” é um curta-metragem brasileiro de atmosfera rural e faroeste, ambientado no Pantanal, que acompanha o retorno de Joana à fazenda da família após a morte da mãe. Ao retornar, ela se vê obrigada a confrontar um ambiente hostil e marcado por um passado sombrio. Com essa premissa, o filme investiga como certas estruturas de violência se perpetuam dentro de uma família e de uma cultura.

A trama gira em torno de João, o pai, e Miguel, o irmão mais novo. João encarna a figura do patriarca que preserva uma honra antiga e cobra dos filhos a continuidade de uma vingança herdada. Miguel, por sua vez, aparece esmagado por essa expectativa, dividido entre o desejo de se libertar e o peso de pertencer àquele mundo. Joana, que volta de fora, funciona como uma consciência crítica: ela enxerga o ciclo porque conseguiu se distanciar dele, ainda que temporariamente.

Dois Bois | Imagem: Reprodução

Dois Bois | Imagem: Reprodução

O primeiro curta ficcional de Perseu Azul mistura suspense psicológico com faroeste, em que o diretor cria uma atmosfera de tensão constante para registrar as consequências de uma herança marcada pela violência e pela masculinidade tóxica. A obra explora a quebra desse ciclo de toxicidade não através de grandes discursos, mas pelo conflito entre aqueles que aceitam a lógica herdada e aqueles que começam a questioná-la. A violência, nesse sentido, deixa de ser apenas um ato individual e passa a representar um comportamento transmitido entre gerações, sustentado por uma ideia distorcida de honra, pertencimento e virilidade.

A fotografia é belíssima e encontra no Pantanal um elemento fundamental para a construção da narrativa. Os planos abertos, a imensidão da paisagem e o contraste entre a beleza natural e a brutalidade dos acontecimentos ajudam a criar uma sensação de isolamento que acompanha os personagens durante todo o filme.

A história é construída a partir do significado da palavra “guaxo”, termo utilizado para designar o animal criado sem a mãe, separado de sua origem e obrigado a sobreviver em outras condições. A palavra funciona como uma chave para compreender os personagens e suas relações, especialmente a sensação de deslocamento de Joana diante da família da qual se afastou. Mais do que uma explicação para o universo do filme, “guaxo” se transforma em uma metáfora para indivíduos que precisam encontrar seu próprio caminho depois de serem arrancados, voluntária ou involuntariamente, de uma estrutura familiar.

No fim, “Dois Bois” se mostra um curta-metragem seguro em sua proposta e visualmente muito bem realizado, que utiliza elementos do faroeste para construir uma história essencialmente brasileira sobre família, violência e ruptura. Perseu Azul transforma o Pantanal em um território de tensão e faz da própria paisagem parte da narrativa, enquanto conduz seus personagens por um conflito em que o passado parece sempre pronto para se repetir. É um filme sobre aquilo que recebemos de quem veio antes de nós, mas, principalmente, sobre a difícil decisão de não continuar carregando aquilo que nos foi deixado.

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no Cineclube Vi nos Filmes.

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