Um triunfo artesanal e uma experiência cinematográfica hipnótica de rara personalidade.
Wildwood (2026), de Travis Knight, é o tipo de realização que faz lembrar por que a animação pode ser uma das formas mais extraordinárias de expressão cinematográfica. Produzido pelo estúdio LAIKA, responsável por Coraline e Kubo e as Cordas Mágicas, o filme acompanha Prue McKeel, uma adolescente que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando seu irmão bebê, Mac, é sequestrado por um bando de corvos. O desaparecimento conduz a garota até a Floresta Impassável, um território misterioso nos arredores de Portland, no qual a realidade parece obedecer a leis próprias. Acompanhada pelo colega Curtis, Prue atravessa a fronteira entre o cotidiano e um universo povoado por animais falantes, criaturas insólitas, figuras políticas corruptas e forças que disputam o destino daquele reino. A premissa pode parecer a de uma aventura fantástica convencional, mas basta observar a maneira como o filme materializa esse universo para perceber que existe ali uma ambição artística muito maior do que simplesmente contar uma boa história.
A cena de abertura é incrivelmente brutal e prepara o terreno para uma narrativa construída com elementos fora do convencional. Quando os corvos surgem e levam Mac, Prue não precisa compreender os mistérios da floresta para saber que precisa entrar nela. É justamente essa simplicidade emocional que sustenta a entrada em Wildwood. A protagonista não parte em busca de glória, de uma profecia ou de um destino grandioso. Parte porque alguém que ama desapareceu. E, quando atravessa os limites daquele território proibido, descobre que o resgate do irmão é apenas o começo de uma jornada que colocará à prova suas convicções, sua coragem e sua compreensão do mundo.

A construção narrativa é o que faz Wildwood funcionar. A floresta não é só cenário de fantasia, nela encontramos histórias, disputas antigas, política, alianças de poder e personagens secundários extremamente complexos. Prue e Curtis atravessam esse mundo aos poucos, e a cada comunidade que encontram fica mais claro que cada uma tem seus códigos, seus conflitos e um jeito próprio de entender o que está acontecendo. A história cresce sem perder o fio emocional que a colocou em movimento: o resgate de Mac deixa de ser apenas um resgate e passa a fazer parte de uma briga bem maior pelo futuro daquele lugar. O roteiro de Chris Butler, adaptado do livro de Colin Meloy, bebe da tradição dos contos de fadas, mas o que segura o filme é a mistura de aventura, humor, sustos, amadurecimento e intriga política. E há tanto detalhe que temos a impressão de que qualquer canto da floresta teria história própria, mesmo sem Prue por perto.
O lado técnico, porém, é onde Wildwood chega ao seu ponto mais impressionante. O stop-motion dá corpo a tudo o que aparece na tela. As criaturas têm peso, textura, temperatura, e parecem carregar uma história anterior ao próprio filme. Folhas, troncos, roupas, pelos, penas, expressões: nada ali está só preenchendo o quadro. Tudo foi pensado, construído e animado para que a gente acredite que aquele mundo existe fisicamente. A direção de Travis Knight, a fotografia de Caleb Deschanel e o desenho de produção de Nelson Lowry fazem de cada composição uma pequena obra de arte. Foram centenas de cenários e bonecos, além do trabalho paciente de animar quadro a quadro. E é difícil não lembrar de Coraline vendo o resultado, não por repetição de fórmula, mas porque ali se vê uma sensibilidade amadurecendo: o fantástico entendido como algo que encanta e incomoda ao mesmo tempo. Se Coraline virou marco da animação sombria contemporânea, Wildwood leva esse legado para uma escala épica.

A grandeza visual do filme está também em entender que beleza não precisa ser delicada, simétrica ou agradável. A fotografia trabalha o contraste entre a Portland urbana e a natureza indomada de Wildwood, e a trilha de Dario Marianelli ajuda a sustentar a atmosfera de fábula épica. O resultado é uma animação que não se contenta em impressionar pela quantidade de detalhes: cada escolha estética está ali para produzir uma sensação. Há sequências em que a composição dos planos, o movimento dos personagens e a densidade dos cenários chegam a um nível de exuberância que faz pensar no que o cinema perde quando deixa de confiar na matéria, na imperfeição e na imaginação humana. No fim, Wildwood é uma declaração de amor ao trabalho artesanal, à paciência e à ideia de que dá para fazer algo extraordinário com milhares de pequenos gestos.
Por trás dessa exuberância há uma reflexão interessante sobre amadurecimento, luto e o modo como a dor pode deformar justamente aquilo que deveria preservar. A floresta funciona como território de passagem entre a infância e a vida adulta, um lugar onde as certezas herdadas deixam de bastar e os personagens precisam descobrir no que acreditam quando o mundo se mostra bem mais cruel do que imaginavam. Prue entra nesse universo pelo amor ao irmão, mas a jornada exige que ela reconheça a complexidade das pessoas, a fragilidade das próprias convicções e a impossibilidade de resolver todos os conflitos só com boa intenção, pois como já dizia São Bernardo de Clairvaux, “de boas intenções, o inferno está cheio.” Do outro lado está a governante conhecida como Governadora Viúva, um contraponto sombrio: sua história passa pela perda de um filho e pela transformação desse sofrimento em ambição e violência. O filme não trata o luto como experiência automaticamente nobre, nem sugere que a dor justifique o que alguém faz em nome dela.
E é por assumir a escuridão como parte inseparável dos seus temas que o filme se mostra bem mais adulto do que a aparência fantástica sugere. A violência não se limita a sustos ocasionais, nem existe só para deixar as batalhas mais emocionantes. Há mortes, confrontos brutais, sangue e momentos de crueldade que tiram da aventura qualquer sensação de segurança. A floresta é bela, mas não é inofensiva. Seus habitantes são capazes de ternura e também de atrocidade, e a luta pela liberdade cobra um preço que o filme não esconde. Mostrar esses conflitos com tanta crueza deixa evidente a distância entre a fantasia como refúgio e a fantasia como ferramenta para olhar a realidade. Quando os personagens encaram a guerra, a opressão e a ambição de quem quer controlar o reino, a aventura deixa de ser brincadeira de imaginação e passa a lidar com as consequências concretas da violência. A obra não subestima o espectador e não faz do sofrimento algo inofensivo. Como nas melhores animações sombrias, o encantamento não apaga o horror: os dois convivem, e é essa convivência que torna o universo tão fascinante.

Wildwood é uma realização deslumbrante, inventiva, exuberante e emocionalmente generosa, uma obra que reafirma a animação como uma das linguagens mais livres, complexas e artisticamente poderosas do cinema. Travis Knight conduz uma aventura de proporções épicas enquanto a LAIKA transforma matéria, luz, movimento e imaginação em um universo de beleza assombrosa. Poucos filmes conseguem fazer com que cada cenário pareça esconder um segredo, cada criatura carregue a promessa de uma descoberta e cada sequência reafirme a possibilidade de o cinema ainda nos surpreender genuinamente. Para quem encontrou em Coraline uma das experiências mais marcantes da animação, Wildwood surge como uma herdeira à altura, não apenas pela afinidade estética, mas pela coragem de abraçar o estranho, o macabro e o maravilhoso sem diluir suas particularidades. Se Coraline definiu uma referência pessoal para o que a animação pode alcançar, Wildwood tem tudo para ocupar o mesmo lugar: o de uma obra-prima que faz o encantamento parecer, mais uma vez, uma das maiores razões para amar o cinema.
★★★★★
Crítica por Pedro Gomes.
Animação não recomendada para menores de 14 anos.

O Bosque Selvagem | Wildwood
Estados Unidos, 2026, 140min.
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler
Elenco: Peyton Elizabeth Lee, Jacob Tremblay, Carey Mulligan
Produção: Travis Knight, Arianne Sutner, Samuel Wilson
Direção de Fotografia: Caleb Deschanel
Música: Dario Marianelli











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